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    <title>Mesquita</title>
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    <pubDate>Thu, 02 Apr 2026 01:21:56 +0000</pubDate>
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        <title>A mesa posta</title>
        <description>&lt;p&gt;Todas as sextas-feiras, o &lt;em&gt;Guardian&lt;/em&gt; publica «A semana à volta do mundo em 20 fotografias» — uma rúbrica que nos mostra o mundo como é. As imagens da &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/artanddesign/gallery/2026/mar/27/the-week-around-the-world-in-20-pictures&quot;&gt;última edição&lt;/a&gt; incluem a celebração do Eid (a festa muçulmana que marca o fim do Ramadão) em Dacar, as cerejeiras em flor em Tóquio, um espectáculo de drones em Seul e os aniversários do &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/1976_Argentine_coup_d%27%C3%A9tat&quot;&gt;golpe militar na Argentina (1976)&lt;/a&gt; e do &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Sharpeville_massacre&quot;&gt;massacre de Sharpeville (1960)&lt;/a&gt; na África do Sul.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas as atrocidades não se ficaram pelo século XX — e o bom jornalismo desinstala. Nas últimas semanas, a rúbrica tem mostrado a violência desumana que se vem desenrolando no Sudão, no Sudão do Sul, na Ucrânia, no Irão, no Líbano e na Palestina.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Há duas semanas, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/artanddesign/gallery/2026/mar/20/the-week-around-the-world-in-20-pictures?CMP=share_btn_url#img-2&quot;&gt;uma fotografia mostrava um menino de oito anos, Mustafa Bani Odeh&lt;/a&gt;, durante o funeral da sua família na Cisjordânia. Mustafa e o seu irmão Khaled sobreviveram ao &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2026/mar/15/israeli-police-kill-two-young-palestinian-boys-and-their-parents-in-west-bank&quot;&gt;ataque que matou os pais e dois irmãos mais novos&lt;/a&gt;. A família — desarmada — tinha ido a Nablus, uma cidade próxima, comprar roupa para o Eid, e voltava para casa quando uma unidade israelita, à paisana, em carro com matrícula palestiniana, abriu fogo sem aviso. Os quatro foram mortos com tiros na cabeça. O Crescente Vermelho — a versão muçulmana da Cruz Vermelha — acusou Israel de ter impedido as ambulâncias de chegar ao local. Depois do tiroteio, a polícia de fronteira arrastou Khaled para fora do carro, agrediu-o e disse-lhe: &lt;em&gt;«Matámos cães.»&lt;/em&gt; Quanto à justificação oficial: alegaram ter «percepcionado uma ameaça imediata» porque o veículo acelerou.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Este assassínio está longe de ser um caso isolado. &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2026/mar/15/israeli-police-kill-two-young-palestinian-boys-and-their-parents-in-west-bank&quot;&gt;Segundo dados da ONU, as forças israelitas mataram mais de 1.400 palestinianos na Cisjordânia desde 2019, incluindo mais de 320 crianças. Nesse período, nenhum soldado foi acusado de homicídio. Nem um único.&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;E se antes a lei era ignorada, agora é a própria lei que codifica a barbárie: o parlamento israelita &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2026/mar/30/israel-passes-law-death-penalty-palestinian-convicted-terrorists&quot;&gt;aprovou esta semana a pena de morte para palestinianos&lt;/a&gt; — em tribunais militares, sem unanimidade, com execução em 90 dias. A última execução em Israel foi a do nazi Adolf Eichmann, em 1962. Agora, a forca é para os palestinianos. Israel é &lt;em&gt;apartheid&lt;/em&gt;, ocupação e selvajaria. É o pior do Ocidente — e estamos todos implicados.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em Gaza, a escala é outra: mais de 75 mil mortos nos primeiros quinze meses deste genocídio, segundo um &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2026/feb/19/gaza-death-toll-higher-than-reported-lancet-study&quot;&gt;estudo da &lt;em&gt;Lancet&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;. E a matança continua.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas é também de Gaza que vem uma &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/artanddesign/gallery/2026/feb/20/the-week-around-the-world-in-20-pictures?CMP=share_btn_url#img-4&quot;&gt;fotografia de Abdel Kareem Hana&lt;/a&gt; que mostra Khan Younis, vista de cima, ao pôr do sol durante o Ramadão. Uma mesa comprida — &lt;em&gt;muito&lt;/em&gt; comprida — atravessa o que foi uma rua, entre escombros até onde a vista alcança. Dezenas de pessoas sentam-se para o iftar, a refeição com que os muçulmanos quebram o jejum diário durante o Ramadão. Em volta, até ao horizonte, uma cidade destruída. E mesmo assim: a mesa posta, as luzes coloridas acesas, a comunidade reunida e pronta para celebrar, para viver.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Este ano, o Ramadão e a Quaresma começaram no mesmo dia: 18 de Fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas. Dois calendários, duas tradições, o mesmo momento de sacrifício e recolhimento — e a mesma aspiração: celebrar em comunidade. Em Jerusalém, as forças israelitas dispersaram à força os fiéis que rezavam o Tarawih — a oração nocturna do Ramadão — junto às muralhas da cidade antiga. Pela primeira vez desde 1967, a mesquita de Al-Aqsa foi encerrada durante todo o Ramadão e o Eid — e permanece fechada hoje.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A Páscoa começa amanhã. O mínimo que podemos fazer é reconhecer as cruzes que tantos muçulmanos estão a carregar, impostas pelos nossos parceiros militares e com a total conivência da Europa, de Portugal e dos Açores. O mínimo que podemos fazer é não desviar o olhar, não esquecer. O mínimo que podemos fazer é seguir o exemplo corajoso de tantos palestinianos que teimam em escolher a esperança.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;img src=&quot;/assets/img/ky-iftar.png&quot; alt=&quot;Mesa do iftar em Khan Younis, Gaza, durante o Ramadão&quot; /&gt;
&lt;em&gt;Fotografia: Abdel Kareem Hana/AP&lt;/em&gt;&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 02 Apr 2026 00:00:00 +0000</pubDate>
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        <title>Ativos estratégicos</title>
        <description>&lt;p&gt;No final do mês passado, vi &lt;em&gt;A Semente do Figo Sagrado&lt;/em&gt;, o mais recente filme de Mohammad Rasoulof. Nomeado para Palma de Ouro no Festival de Cannes 2024, o filme retrata a repressão exercida pelo regime iraniano durante &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/global-development/gallery/2023/sep/14/mahsa-amini-and-a-year-of-brutality-and-courage-in-iran-in-illustrations&quot;&gt;a onda de protestos desencadeada pela morte de Mahsa Amini&lt;/a&gt;, em 2022, às mãos da “polícia da moralidade”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Durante mais de duas horas, o espectador acompanha um período conturbado no quotidiano de uma família da elite iraniana. O pai, funcionário do Tribunal Revolucionário Islâmico, é confrontado pelas filhas acerca da desinformação difundida pelos meios de comunicação estatais, bem como das prisões arbitrárias e das agressões perpetradas pelo regime de &lt;em&gt;Ayatollah&lt;/em&gt; Khamenei, com particular incidência nas jovens iranianas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esta obra de ficção, escrita e realizada por um iraniano exilado na Europa, aborda as amplamente documentadas &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/global-development/2026/jan/27/iran-protests-death-toll-disappeared-bodies-mass-burials-30000-dead&quot;&gt;violações de direitos humanos cometidas pelo regime iraniano&lt;/a&gt;. É manifesto que a teocracia que governou o Irão desde 1979 foi terrível para a generalidade da sua população — e muito em particular para as mulheres.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O filme mostra como é fácil normalizar abusos de poder — um exercício que não é exclusivo das teocracias. Sendo o regime de Khamenei indefensável, também o é a operação militar estadunidense e israelita que o assassinou. Segundo &lt;a href=&quot;https://www.un.org/en/about-us/un-charter/full-text&quot;&gt;os termos da Carta das Nações Unidas&lt;/a&gt;, o recurso à força só é lícito em legítima defesa face a um ataque iminente, ou mediante autorização do Conselho de Segurança. Nenhuma dessas condições foi cumprida. Acresce que o ataque foi desencadeado enquanto decorriam &lt;a href=&quot;https://www.aljazeera.com/news/2026/2/28/peace-within-reach-as-iran-agrees-no-nuclear-material-stockpile-oman-fm&quot;&gt;negociações mediadas por Omã que mostravam sérios sinais de avanço&lt;/a&gt;. Em vez de uma solução diplomática, os EUA optaram, novamente, por espezinhar o direito internacional, recorrendo à mesma alegação de “prevenção” que Putin invocou para invadir a Ucrânia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Pelos Açores, registou-se não só um grande número de movimentos de aeronaves militares norte-americanas, como também a repugnante e habitual submissão bolieirista face aos interesses de Trump e Netanyahu. &lt;a href=&quot;https://portal.azores.gov.pt/web/comunicacao/news-detail?id=21670792&quot;&gt;A presidência do Governo Regional não perdeu tempo em afirmar que “Os Açores e a sua posição geográfica são um ativo, cuja centralidade estratégica para a segurança e defesa atlântica e ocidental, no plano nacional, no quadro da NATO e das relações com países aliados de Portugal, está agora reconfirmada pela atual conjuntura internacional.”&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Bolieiro tomou esta posição no domingo passado, escassas horas após o bombardeamento da escola primária Shajareh Tayyebeh, no sul do Irão, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/global-development/2026/mar/03/minab-school-bombing-how-the-worst-mass-casualty-event-of-the-iran-war-unfolded-a-visual-guide&quot;&gt;que vitimou mais de 150 pessoas — na sua maioria meninas entre os 7 e os 12 anos&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No próximo domingo, celebra-se o Dia Internacional da Mulher — uma data com tradição revolucionária, proposta em &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/International_Women%27s_Day&quot;&gt;1910 por Clara Zetkin&lt;/a&gt; como dia de luta pela emancipação feminina. Vale a pena lembrar o que isso significa no contexto iraniano: mulheres que arriscaram a vida ao tirar o véu em público, raparigas que foram para a escola e não voltaram para casa.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Não podemos invocar os direitos das mulheres iranianas para justificar guerras e virar as costas quando as bases militares no nosso arquipélago servem de rampa de lançamento para as bombas que as matam. Ignorar as meninas de Shajareh Tayyebeh num comunicado sobre “ativos estratégicos” é uma cobardia aterradora. A Bolieiro de nada servirá distribuir flores no próximo domingo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A solidariedade com as mulheres, e com as iranianas em particular, não se faz com gestos simbólicos num dia por ano. Faz-se honrando a memória dessas meninas. Faz-se exigindo que os nossos representantes se recusem a ser cúmplices de guerras ilegais. As revolucionárias que fundaram este dia sabiam que tanto os tiranos como os imperialistas são adversários da emancipação popular. E entre os grandes tiranos e os pequenos homens que lhes abrem as portas, a diferença é apenas de escala.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 05 Mar 2026 00:00:00 +0000</pubDate>
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        <title>O que nos une</title>
        <description>&lt;p&gt;O tema desta edição especial de Natal é “nossa Humanidade”, aquilo que nos une. Tendo a pensar no assunto no sentido inverso: parece-me que são exatamente essas ligações a nossa Humanidade partilhada. Muito mais interessante do que os bens ou os conhecimentos que qualquer pessoa possui é o modo como se relaciona com o seu meio: o cuidado que dá a quem lhe é próximo, as amizades que cultiva e as causas que a movem.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Estou certo de que a enorme maioria das pessoas está muito mais preocupada com a saúde da sua família e com o bem-estar dos seus amigos do que com o dinheiro que tem no banco ou o carro que conduz. Que a maioria de nós se vê a si mesma como parte de uma comunidade maior: seja familiar ou outra.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No entanto, a genética demora muito a evoluir e sofremos da miopia do costume: longe da vista, longe do coração. Sim, &lt;em&gt;eu&lt;/em&gt; cuido da minha família; os &lt;em&gt;meus&lt;/em&gt; familiares são amigos dos seus amigos; os &lt;em&gt;meus&lt;/em&gt; amigos são boas pessoas e ajudam os seus vizinhos. E nem nos surpreendemos quando é algum desconhecido, de carne e osso, que nos dá o jeito que nos permite desenrascar. Mas &lt;em&gt;aquele&lt;/em&gt; pessoal imigrante só vem cá para ficar com os nossos trabalhos. &lt;em&gt;Aqueles&lt;/em&gt; árabes odeiam os judeus, odeiam os católicos, odeiam o Ocidente. &lt;em&gt;Não digo que todos, mas muitos&lt;/em&gt;. Temos medo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Não é que queiramos ser violentos, mas se eles vêm aí para ficar com o que é nosso, melhor é que fiquem retidos na Turquia, sejam enviados para a Albânia ou se afoguem no Mediterrâneo. Não é que queiramos ser violentos, mas que fiquem nos seus países, onde a miséria está por toda a parte e os empregos bem pagos não existem. É o chamado dilema do prisioneiro: se estou convencido que &lt;em&gt;o outro&lt;/em&gt; se prepara para a violência, seja para se defender — caso eu também me prepare —, seja para nos tirar o que temos — caso não nos preparemos —, então o melhor é agredir primeiro.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Quem tem ao pé de si uma loja de conveniência gerida por imigrantes sabe que aqueles seus conhecidos em particular, aqueles do seu bairro, são atenciosos. Nas Avenidas Novas, na rua da Beneficência, tratam bem o Meez e muito bem trata o Meez os seus fregueses. Mudou-se para Lisboa há cerca de 10 anos. Veio sozinho, como de costume, deixando a mulher e a filha no Bangladesh. Entretanto, o negócio permitiu-lhe trazê-las e vivem os três num apartamento perto da loja. Os imigrantes concretos são bem-vindos — os abstratos, um problema.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em 1870, Marx escreveu com perspicácia: “todos os centros industriais e comerciais em Inglaterra possuem agora uma classe trabalhadora dividida em dois campos hostis: ingleses e irlandeses. O trabalhador inglês comum odeia o irlandês enquanto concorrente que baixa o seu nível de vida.” Aos maus patrões serve-lhes a narrativa de que há por aí uns “ilegais” que trabalham calados por tuta e meia. E não faltam canalhas que gastam o demasiado tempo de antena que têm a pintar um cenário em que esse grupo abstrato de imigrantes é a grande ameaça à vida — e ao sustento — das pessoas trabalhadoras.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O que nos faz falta é um novo enquadramento. Um enquadramento solidário — palavra que significa “que tem interesses e responsabilidades recíprocos”. Ora, os interesses dos trabalhadores, imigrantes ou não, são os mesmos: uma vida boa, confortável, para si e para os seus. Migrantes ou não, são os trabalhadores que fazem funcionar as escolas, hospitais e serviços de que dependemos. Tem-nos faltado o sentido de responsabilidade, tolhido pelo medo que nos instilam.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Se confiamos na maioria das pessoas que conhecemos, façamos por confiar nos restantes. São como nós — fazem o que podem pelos seus e, quando possível, facilitam a vida dos vizinhos. Não nos deixemos dividir. São estas responsabilidades e interesses partilhados a base da nossa Humanidade. E o que nos une ao próximo, também nos une a quem está mais longe.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Feliz Natal!&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 25 Dec 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        <title>Ponto de vista</title>
        <description>&lt;p&gt;Há algumas semanas, conheci o namorado de uma amiga num jantar. Depois de termos passado bastante tempo a falar de política, perguntou-me: “O que te levou a ter esse ponto de vista?”. É o tipo de pergunta que nos tem feito muita falta.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Cresci confortavelmente, numa família ligada ao PSD, sem a necessidade de pensar em política antes da universidade. Não me faltava nada e não estava atento ao que faltava aos outros. Preocupavam-me apenas as alterações climáticas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ao entrar na idade adulta, fui-me apercebendo gradualmente das desigualdades à minha volta. Esse processo agudizou-se em 2019, quando, a estudar na Bélgica, apanhei um autocarro noturno de Milão para Bruxelas. Em Milão, a zona da estação estava nos antípodas da ostentação das galerias — a poucos minutos de metro.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em Bruxelas, o autocarro deixou-nos numa parte da estação de comboios que desconhecia. Já tinha visto muita gente em situação de sem-abrigo, mas nunca algo semelhante. Centenas de pessoas (incluindo crianças) pernoitavam nos pisos inferiores da estação, entre ratos e um cheiro a mijo insuportável. Chocaram-me contrastes tão profundos no seio da Europa.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Procurei livros que quantificassem os níveis de desigualdade e encontrei &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;http://piketty.pse.ens.fr/files/Piketty2014Capital21c.pdf&quot;&gt;O Capital no Século XXI&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, de Thomas Piketty, e o &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;https://wir2022.wid.world/&quot;&gt;World Inequality Report&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;. Comecei a compreender quão absurda é a distribuição do rendimento, quanto dos frutos do trabalho coletivo é apropriado pelos detentores de capital, e como um sistema em que a rendibilidade do capital supera o crescimento económico agrava as desigualdades. Percebi que esta organização económica tende estruturalmente para a concentração da riqueza, pelo que é indispensável que o património seja continuamente redistribuído.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A maioria das objeções que ouvi relativamente a impostos sobre o património são de índole prática: “não há como — os ricos acabam sempre por fugir aos impostos”. Informei-me: li &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;https://gabriel-zucman.eu/files/Zucman2015Slides.pdf&quot;&gt;A Riqueza Oculta das Nações&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; e &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;https://gabriel-zucman.eu/files/SZ2019Slides.pdf&quot;&gt;O Triunfo da Injustiça&lt;/a&gt;&lt;/em&gt;, de Gabriel Zucman, e vim a trabalhar no &lt;em&gt;&lt;a href=&quot;https://www.taxobservatory.eu/&quot;&gt;EU Tax Observatory&lt;/a&gt;&lt;/em&gt; (EUTO), o centro que ele dirige e que estuda a evasão fiscal global. Compreendi que o panorama atual é radicalmente diferente do de há poucas décadas: graças a acordos de cooperação internacional, é hoje possível saber quem tem o quê. Assim, são viáveis impostos sobre o património. Uma proposta que tem ganho tração é um imposto anual de 2% — pago em dinheiro ou em espécie — sobre patrimónios superiores a 100 milhões de euros.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Entretanto, fui aprendendo sobre o contexto regional e nacional. A nossa região é a mais desigual de Portugal (&lt;a href=&quot;https://açores.net/desigualdade/2023/12/10/desigualdade.html&quot;&gt;tanto segundo o índice de Gini como o rácio S80/20&lt;/a&gt;) e &lt;a href=&quot;https://açores.net/pobreza/2023/12/12/pobreza.html&quot;&gt;apresenta taxas de pobreza e exclusão social comparáveis às da Roménia e da Bulgária&lt;/a&gt;. E, em Portugal, não temos impostos sobre o património, salvo o IMI, que ignora a maioria dos ativos e não considera dívidas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Era-me evidente a necessidade de me tornar mais politicamente ativo e de tentar inverter o paradigma fiscal: aliviar os impostos sobre o consumo e sobre o trabalho e compensar a receita tributando o capital. Em 2023, passei a militar no Bloco de Esquerda por ser o único partido presente no parlamento regional que encara a tensão entre o trabalho e o capital e faz da redistribuição uma prioridade. É um espaço plural, de debate e solidariedade. É um veículo para que as nossas ideias possam ir a votos e tem sido, pela dedicação dos meus camaradas às causas que nos movem, uma fonte de inspiração.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Depois de um ano e 28 textos nestas páginas, fica aqui a resposta pública à pergunta que me fizeram em privado. É uma pergunta que adotarei.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Estas desigualdades absurdas subsistem por opção, por conivência. Chega. Façamo-nos ouvir.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;em&gt;PS&lt;/em&gt;: Por motivos profissionais, estarei algumas semanas sem escrever. Abraço e até breve!&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 30 Oct 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        <title>Reféns de Primeira e de Segunda</title>
        <description>&lt;p&gt;As recentes trocas de reféns e cadáveres entre o Hamas e Israel tornaram impossível ignorar o óbvio: para os meios de comunicação ocidentais, há sofrimento que conta e sofrimento que não conta. Este enviesamento sistemático da nossa comunicação social é tão preocupante quanto previsível.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nos últimos dias, o Hamas libertou os últimos vinte reféns que permaneciam vivos em Gaza. É fácil descobrir os seus nomes e fotografias — especialmente os dos três portugueses, pelos vistos ainda mais importantes. Como parte do acordo, Israel libertou dois mil palestinianos. Destes, mil e setecentos tinham sido detidos nos dois últimos anos e estavam presos sem qualquer acusação e sem qualquer contacto com as famílias. O Ocidente nunca pareceu importar-se.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A diferença de tratamento não se fica pelos reféns vivos. No momento em que escrevo, vinte cadáveres israelitas permanecem em Gaza; oito já foram entregues pelo Hamas. Os nomes circulam em todos os jornais, as fotografias repetem-se, as famílias têm rosto. Em sentido inverso, quarenta e cinco cadáveres &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/live/2025/oct/14/gaza-ceasefire-israel-hamas-palestine-hostages-detainees-truce-live-news-updates?CMP=share_btn_url&amp;amp;page=with%3Ablock-68ee9fe08f084a6128737b82#block-68ee9fe08f084a6128737b82&quot;&gt;torturados&lt;/a&gt; foram devolvidos — os primeiros de um total de quatrocentos e cinquenta mortos em prisões israelitas&lt;sup id=&quot;fnref:3&quot; role=&quot;doc-noteref&quot;&gt;&lt;a href=&quot;#fn:3&quot; class=&quot;footnote&quot; rel=&quot;footnote&quot;&gt;1&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt;. Destes, quantos nomes conhecemos? Quantos rostos? Dos dois mil e quinhentos que voltaram para Gaza, pouco parece importar-nos quantos chegaram vivos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esta absoluta primazia dada às vidas israelitas está longe de ser novidade. No seu livro &lt;em&gt;Vítimas Perfeitas&lt;/em&gt; (recentemente publicado em português pela Edições 70), Mohammed El-Kurd retrata sublimemente a atitude ocidental desde os inícios do projeto sionista: só os palestinianos extraordinários — ou vítimas de uma extraordinária violência — têm merecido a nossa empatia. A humanidade da maioria continua sem ser um dado adquirido.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;As vítimas israelitas nunca precisaram de provar a sua inocência. Muitas terão servido no exército de ocupação e participado na colonização da Palestina. Outras, como a canadiana-israelita Vivian Silver&lt;sup id=&quot;fnref:1&quot; role=&quot;doc-noteref&quot;&gt;&lt;a href=&quot;#fn:1&quot; class=&quot;footnote&quot; rel=&quot;footnote&quot;&gt;2&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt;, dedicaram a vida ao ativismo pela paz. Em todos os casos, a humanidade das vítimas sempre foi evidente, inquestionável.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Quanto aos dois mil palestinianos libertados, foram pouco mais que uma nota de rodapé. Apesar de também serem reféns — detidos sem acusação, sem julgamento e vítimas de abusos nas prisões — a palavra estava ausente do léxico utilizado. &lt;a href=&quot;https://www.aljazeera.com/features/2025/10/13/explainer-who-are-the-palestinian-captives-israel-released&quot;&gt;Estes homens, mulheres e menores anónimos&lt;/a&gt; são, aos olhos ocidentais, terroristas até prova em contrário. Há quem nasça humano e quem tenha de o provar, dia após dia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Apesar do suposto cessar-fogo, Israel continua a matar palestinianos. A fronteira em Rafah continua encerrada&lt;sup id=&quot;fnref:2&quot; role=&quot;doc-noteref&quot;&gt;&lt;a href=&quot;#fn:2&quot; class=&quot;footnote&quot; rel=&quot;footnote&quot;&gt;3&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt;. O &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/live/2025/oct/14/gaza-ceasefire-israel-hamas-palestine-hostages-detainees-truce-live-news-updates?CMP=share_btn_url&amp;amp;page=with%3Ablock-68ee8f378f0894af1b593ca8#block-68ee8f378f0894af1b593ca8&quot;&gt;ministro Ben Gvir ameaçou bloquear toda a ajuda humanitária&lt;/a&gt; se o Hamas não devolver imediatamente os restantes cadáveres israelitas. A Cruz Vermelha adverte que encontrá-los demorará semanas. Só neste sábado, a população encontrou cento e trinta e cinco corpos palestinianos sob os escombros. Estimam-se mais dez mil por encontrar. Fazer depender a entrada de ajuda do retorno imediato de vinte cadáveres israelitas — vinte agulhas neste palheiro — é querer perpetuar a fome.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;As trocas destes dias revelam a nossa aceitação desta aritmética perversa: vinte reféns valem mais que dois mil, vinte cadáveres — entre dez mil nos escombros de Gaza — justificam a continuação da punição coletiva.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Enquanto aceitarmos que há reféns de primeira e reféns de segunda, que há cadáveres que contam e cadáveres que não, enquanto aceitarmos a ocupação e o apartheid, nenhum cessar-fogo nos absolverá da cumplicidade.&lt;/p&gt;

&lt;div class=&quot;footnotes&quot; role=&quot;doc-endnotes&quot;&gt;
  &lt;ol&gt;
    &lt;li id=&quot;fn:3&quot; role=&quot;doc-endnote&quot;&gt;
      &lt;p&gt;Mantenho o texto como foi publicado. No entanto, não é claro onde morreram os palestinianos. Segundo o &lt;em&gt;The Guardian&lt;/em&gt;, os &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/oct/15/palestinian-bodies-returned-by-israel-show-signs-of-torture-and-execution-say-doctors&quot;&gt;corpos que vão chegando apresentam sinais de tortura e execução&lt;/a&gt;. Isso parece-me muito mais relevante que a precisão sobre onde isso aconteceu. &lt;a href=&quot;#fnref:3&quot; class=&quot;reversefootnote&quot; role=&quot;doc-backlink&quot;&gt;&amp;#8617;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
    &lt;/li&gt;
    &lt;li id=&quot;fn:1&quot; role=&quot;doc-endnote&quot;&gt;
      &lt;p&gt;Vivian Silver imigrou para Israel em 1974 e trabalhou durante décadas pelo diálogo entre israelitas e palestinianos. Foi assassinada a 7 de outubro de 2023. A família pediu que a sua morte não servisse de pretexto para mais violência — um apelo evidentemente ignorado. &lt;a href=&quot;#fnref:1&quot; class=&quot;reversefootnote&quot; role=&quot;doc-backlink&quot;&gt;&amp;#8617;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
    &lt;/li&gt;
    &lt;li id=&quot;fn:2&quot; role=&quot;doc-endnote&quot;&gt;
      &lt;p&gt;À hora a que escrevo, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/live/2025/oct/15/gaza-ceasefire-israel-hamas-palestine-aid-hostages-detainees-prisoners-live-news-updates?CMP=share_btn_url&amp;amp;page=with%3Ablock-68ef98a08f085ab6fee70116#block-68ef98a08f085ab6fee70116&quot;&gt;as notícias mais recentes, dão conta de que Israel se prepara para abrir a passagem&lt;/a&gt;. &lt;a href=&quot;#fnref:2&quot; class=&quot;reversefootnote&quot; role=&quot;doc-backlink&quot;&gt;&amp;#8617;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
    &lt;/li&gt;
  &lt;/ol&gt;
&lt;/div&gt;
</description>
        <pubDate>Thu, 16 Oct 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://mesquita.xyz/refens
      
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      </item>

  



    
    

    

      <item>
        <title>Uma bolha é uma bolha é uma bolha</title>
        <description>&lt;p&gt;Fulano julgava-se rico por ser dono de uma cadeira que dizia valer dez milhões de euros, apesar do seu aspeto banal. As pessoas à sua volta não ligavam aos seus devaneios, até ao dia em que Fulano anunciou ter ficado ainda mais rico, por ter vendido a cadeira acima do valor que lhe atribuía. Quando lhe perguntaram quem teria comprado tal cadeira, Fulano explicou: foi Sicrana, que lhe deu dois banquinhos — cada um valendo seis milhões — em troca da cadeira.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A valorização que Fulano faz dos seus assentos é inócua, de tão absurda que é. Porém, a anedota tem eco no atual panorama financeiro. Em 2009, Satoshi Nakamoto criou, algoritmicamente, a &lt;em&gt;bitcoin&lt;/em&gt;. Enquanto uma cadeira serve para se sentar, uma &lt;em&gt;bitcoin&lt;/em&gt; não tem utilidade quotidiana nem monetária: ao contrário do dinheiro, não é amplamente usada como moeda de troca. Ainda assim, à luz da valorização atual, se dividissemos uniformemente as &lt;em&gt;bitcoins&lt;/em&gt; existentes por todos os portugueses, cada pessoa ficaria cerca de 200 mil euros mais rica. Se juntarmos outras &lt;em&gt;criptomoedas&lt;/em&gt;, o valor duplica — e continua a crescer quando incluímos os derivados financeiros destas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Isto não é uma curiosidade inofensiva. À medida que as criptomoedas valorizam e se integram no sistema financeiro, contaminam fundos de pensões, seguros de vida e aplicações financeiras de que depende a estabilidade económica de milhões de pessoas. A história oferece-nos precedentes sombrios. Em 1997, na Albânia, o colapso das pirâmides de Ponzi — esquemas sem base produtiva, tal como as criptomoedas — provocou tumultos, derrubou o governo e mergulhou o país no caos. A diferença é que agora a escala é outra.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;As criptomoedas representam um novo capítulo numa narrativa mais ampla: a progressiva financeirização da economia mundial. Francisco Louçã e Michael Ash mostram-no no livro &lt;em&gt;Sombras&lt;/em&gt;, onde documentam como, nas décadas que antecederam a crise de 2008, o sistema financeiro se descolou da economia produtiva, com grandes empresas a priorizar a engenharia financeira em detrimento do investimento real. A crise deveria ter servido de lição. No entanto, assistimos hoje à difusão da especulação.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esta financeirização desenfreada expõe as limitações dos nossos instrumentos de medição económica. O PIB cresce com a especulação. A atenção excessiva que lhe continuamos a dar induz em erro os decisores políticos, levando-os a celebrar como “crescimento” o que muitas vezes não passa da transferência de recursos dos setores produtivos para os especulativos, que não criam valor: apenas o redistribuem, consolidando fortunas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;É preciso repensar a economia, voltando aos fundamentos: que modos de organização nos permitem, enquanto sociedade, usar os recursos de que dispomos — ambientais, humanos e tecnológicos — para vivermos com conforto, saúde, e sustentavelmente? E como evitar que voltemos a pagar pelas bolhas que alguns vão criando?&lt;/p&gt;

&lt;h2 id=&quot;breves&quot;&gt;Breves&lt;/h2&gt;

&lt;ol&gt;
  &lt;li&gt;
    &lt;p&gt;Ainda bem que André Franqueira Rodrigues se encontra entre os 5 eurodeputados portugueses que exigiram a condenação dos ataques contra a Gaza Global Flotilla. Pena termos escolhido mal os outros 16.&lt;/p&gt;
  &lt;/li&gt;
  &lt;li&gt;
    &lt;p&gt;Pedro Gomes escreveu ontem neste jornal sobre “uma diminuição do endividamento e uma gestão cuidadosa da dívida” açoriana desde 2021. Mentiu: &lt;a href=&quot;https://bpstat.bportugal.pt/serie/12561464&quot;&gt;segundo o Banco de Portugal, a dívida cresceu de 2485 milhōes de euros (primeiro trimestre de 2021) para 3401 milhões — um ritmo de 229 milhões ao ano&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;
  &lt;/li&gt;
  &lt;li&gt;
    &lt;p&gt;Por fazer parte das listas do BE nestas autárquicas, só me será permitido voltar a escrever aqui após as eleições. Aproveito já para apoiar publicamente a candidatura da Jessica Pacheco à Câmara da Ribeira Grande. É uma ativista militante, com uma capacidade de trabalho, inteligência e empatia que são do melhor que há na política. Oxalá esta candidatura focada no essencial — na qualidade de vida, no acesso à habitação e no respeito pelo meio ambiente — encha de esperança a gente da Ribeira Grande. Temos alternativa: valorizemo-la!&lt;/p&gt;
  &lt;/li&gt;
&lt;/ol&gt;
</description>
        <pubDate>Thu, 18 Sep 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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      </item>

  



    
    

    

      <item>
        <title>Balanço de algumas desigualdades</title>
        <description>&lt;p&gt;Na próxima terça-feira, terá início a octogésima Assembleia Geral das Nações Unidas. Este fórum propõe-se a dar atenção aos desafios que mais atormentam a humanidade e discutir soluções para os mesmos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;António Guterres, que dará início à sessão, enumerou, por esta ordem, os quatro desafios mais prementes em 2025: conflitos desenfreados, desigualdades galopantes, crise climática e tecnologia fora de controlo.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Sobre os conflitos armados, &lt;a href=&quot;https://mesquita.xyz/jornalistas&quot;&gt;reitero o que escrevi recentemente&lt;/a&gt;: Portugal e a União Europeia não podem deixar de usar toda a capacidade de influência que têm sobre os beligerantes. Dada a situação na Palestina e na Ucrânia, temos o dever de aplicar as sanções mais pesadas possíveis às lideranças israelitas e russas.&lt;sup id=&quot;fnref:1&quot; role=&quot;doc-noteref&quot;&gt;&lt;a href=&quot;#fn:1&quot; class=&quot;footnote&quot; rel=&quot;footnote&quot;&gt;1&lt;/a&gt;&lt;/sup&gt;&lt;/p&gt;

&lt;h2 id=&quot;a-concentração-extrema-de-riqueza&quot;&gt;A Concentração Extrema de Riqueza&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;Quanto às desigualdades galopantes, o &lt;em&gt;World Inequality Report&lt;/em&gt;, coordenado por Chancel, Piketty, Saez e Zucman — disponível em &lt;a href=&quot;https://wir2022.wid.world&quot;&gt;https://wir2022.wid.world&lt;/a&gt; e com um sumário de 11 páginas —, faz um excelente balanço das desigualdades a nível mundial.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O relatório informa que o 1% mais rico da população mundial capturou 38% do crescimento económico que se verificou entre 1995 e 2021, ao passo que a metade mais pobre ficou com 2% do aumento da riqueza. Mais: 0,01% da população mundial — cerca de meio milhão de adultos, com ativos superiores a 17 milhões de euros em 2021 — detém mais de 10% do total da riqueza. Feitas as contas, são mais de mil vezes mais ricos que a média. É um sintoma de um sistema económico que desrespeita o trabalho.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;&lt;a href=&quot;https://gabriel-zucman.eu/files/SZ2019Slides.pdf&quot;&gt;Estes multimilionários são menos tributados que muito da população trabalhadora&lt;/a&gt;. Assim, perante um sistema fiscal vigente profundamente injusto, defendo que se reduzam os impostos sobre quem menos tem (como o IVA sobre produtos de primeira necessidade) e se financiem investimentos na educação, saúde e transportes através de impostos sobre o património multimilionário.&lt;/p&gt;

&lt;h2 id=&quot;desigualdade-climática&quot;&gt;Desigualdade Climática&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;Esta desigualdade replica-se dramaticamente nas emissões de carbono. Para limitar o aquecimento global a 2°C, as emissões &lt;em&gt;per capita&lt;/em&gt; não devem exceder o equivalente a 3,4 toneladas de CO&lt;sub&gt;2&lt;/sub&gt; anuais. Contudo, em 2019, a média mundial situava-se nas 6,6 toneladas &lt;em&gt;per capita&lt;/em&gt; — o dobro do sustentável.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O contraste entre ricos e pobres é brutal: a metade mais pobre emite menos de 2 toneladas anuais &lt;em&gt;per capita&lt;/em&gt;, enquanto o 1% mais rico emite, em média, mais de 100 toneladas. &lt;a href=&quot;https://co2.myclimate.org/en/calculate_emissions&quot;&gt;Uma ida e volta Lisboa-Ponta Delgada gera mais de 600 kg de CO&lt;sub&gt;2&lt;/sub&gt;e por passageiro&lt;/a&gt; — quase um quinto da quota anual sustentável de uma pessoa. Voos em classe executiva correspondem a um acréscimo de emissões na ordem dos 50% e os jatos privados emitem incomparavelmente mais.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A conclusão é óbvia: a aviação privada tem de acabar, assim como a &lt;a href=&quot;https://op.europa.eu/en/publication-detail/-/publication/0b1c6cdd-88d3-11e9-9369-01aa75ed71a1&quot;&gt;isenção de IVA na aviação comercial&lt;/a&gt; — um subsídio que incide principalmente sobre os mais ricos. A justiça climática exige justiça fiscal.&lt;/p&gt;

&lt;h2 id=&quot;vontades&quot;&gt;Vontades&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;No seu discurso, ao referir que existem soluções disponíveis para estas crises, Guterres aludiu a uma metáfora interessante: a de que, ao invés de reinventar a roda, o que precisamos é de pô-la em movimento. Tem razão: são tudo questões de vontade política.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Faz falta uma maior pressão popular no que toca a estes assuntos. Os dados estão à vista, as soluções são conhecidas — resta mobilizar a sociedade civil para que os decisores políticos ajam. Mãos à obra!&lt;/p&gt;

&lt;div class=&quot;footnotes&quot; role=&quot;doc-endnotes&quot;&gt;
  &lt;ol&gt;
    &lt;li id=&quot;fn:1&quot; role=&quot;doc-endnote&quot;&gt;
      &lt;p&gt;Sobre a atual relação entre Israel e a Palestina, aproveito para recomendar a série documental do &lt;em&gt;The Guardian&lt;/em&gt; entitulada &lt;a href=&quot;https://www.youtube.com/playlist?list=PLa_1MA_DEorGnakB7QV1Q_LBpHgtGQDxi&quot;&gt;&lt;em&gt;Along the Green Line&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;. &lt;a href=&quot;#fnref:1&quot; class=&quot;reversefootnote&quot; role=&quot;doc-backlink&quot;&gt;&amp;#8617;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;
    &lt;/li&gt;
  &lt;/ol&gt;
&lt;/div&gt;
</description>
        <pubDate>Thu, 04 Sep 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://mesquita.xyz/un80
      
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      </item>

  



    
    

    

      <item>
        <title>The Man Who Feeds Gaza&apos;s Children [Business Insider]</title>
        <description>
</description>
        <pubDate>Fri, 22 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://www.youtube.com/watch?v=FsNEasL2zp0
      
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      </item>

  



    
    

    

      <item>
        <title>The imprisoned Israelis refusing military service in Gaza [The Guardian]</title>
        <description>
</description>
        <pubDate>Thu, 21 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://www.youtube.com/watch?v=sbFXEbKmzHA
      
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      <item>
        <title>Signal</title>
        <description>&lt;p&gt;Em 2018, estava numa aula de criptografia, quando o professor nos disse, muito laconicamente, “usem o Signal”. Não fazia a mais pequena ideia do que ele estava a falar: o termo era-me desconhecido — tanto que o anotei mal —, e nem me havia sido explicado que estávamos a falar de uma aplicação de mensagens instantâneas. Tivesse sido outro professor, o mais provável teria sido deixar a frase passar, mas já tinha aprendido a prestar atenção ao que este dizia.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Não tardou até estar a ler sobre o &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt; em &lt;a href=&quot;https://signal.org&quot;&gt;https://signal.org&lt;/a&gt;. Descobri então que funcionava tal e qual como o &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt;, mas sem os efeitos secundários: um exemplo concreto de como a tecnologia não está necessariamente associada à invasão da nossa privacidade nem à monetização dos nossos dados. Revolucionário.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O ponto central da questão é o facto de, contrariamente ao &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt; e à generalidade das &lt;em&gt;apps&lt;/em&gt;, o &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt; ser uma aplicação cujo código é público. Ou seja, é possível a qualquer pessoa descarregar o código e inspecioná-lo linha a linha. Esta transparência permite-nos confirmar que a aplicação apenas acede à câmara ou ao microfone quando necessário — durante videochamadas, por exemplo — e garante que todas as comunicações são devidamente encriptadas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mais importante ainda, podemos verificar que os nossos dados e metadados (informações sobre quando, com quem e durante quanto tempo comunicamos) servem exclusivamente para facilitar a comunicação, não sendo recolhidos para fins comerciais.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O código do &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt;, por outro lado, é secreto. Para além de não podermos verificar o que realmente faz, há a questão fundamental do seu modelo de negócios. A &lt;em&gt;Meta&lt;/em&gt; (a proprietária) disponibiliza este produto sem apresentar uma fatura aos utilizadores. Porquê? Porque fazem dinheiro de outra forma.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Embora o conteúdo das conversas seja alegadamente encriptado, os metadados — informações sobre os nossos padrões de comunicação, contactos e comportamentos — são sistematicamente recolhidos e monetizados. Aplica-se aqui a máxima das empresas tecnológicas: se não estás a pagar pelo produto, és o produto.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A credibilidade desta análise ganha força quando consideramos a história de Brian Acton, cofundador do &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt;. &lt;a href=&quot;https://techcrunch.com/2019/04/03/whatsapp-brian-acton-disrupt&quot;&gt;Em 2017, dois anos após a venda à &lt;em&gt;Meta&lt;/em&gt;, Acton decidiu abandonar o projeto, abdicando de 850 milhões de dólares&lt;/a&gt;. A razão? Estava profundamente insatisfeito com o rumo que Mark Zuckerberg queria dar ao produto e com as práticas de monetização implementadas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Após deixar o &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt;, Acton canalizou os seus esforços para criar a Signal Technology Foundation, uma organização sem fins lucrativos, trabalhando com Moxie Marlinspike, o criador do protocolo criptográfico do &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt;. Esta decisão representa mais do que uma mudança de carreira — é uma declaração de princípios e um alerta.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Estou a par do principal argumento usado contra a troca: “toda a gente tem &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt; e é assim que consigo comunicar. No &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt;, ia falar com quem?”. De facto, a adoção do &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt; está longe de ser universal. Apesar de ser, há já vários anos, amplamente usado por entusiastas da privacidade, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/us-news/2025/apr/06/signal-group-chat-leak-how-it-happened&quot;&gt;jornalistas e altos representantes governamentais conscientes da importância da segurança das comunicações&lt;/a&gt;, muita gente não tem a &lt;em&gt;app&lt;/em&gt; instalada.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Contudo, esta limitação é facilmente superável com algum empenho em convencer as pessoas próximas. Pessoalmente, uso o &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt; em exclusivo há vários anos, tendo gradualmente convertido a minha rede de contactos. O resultado? Hoje, os meus três avós com &lt;em&gt;smartphone&lt;/em&gt; comunicam através do &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Trocar o &lt;em&gt;WhatsApp&lt;/em&gt; pelo &lt;em&gt;Signal&lt;/em&gt; é um ato de libertação digital. Como diria Hugo Almeida, é fácil, eficaz e liberal. No verdadeiro sentido do termo, para variar.&lt;/p&gt;
</description>
        <pubDate>Thu, 21 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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      </item>

  



    
    

    

      <item>
        <title>Mártires, proximidade e cooperação</title>
        <description>&lt;p&gt;Uma pessoa da minha família disse-me: “Não sei por que estás sempre a escrever sobre a Palestina… é tão longe”. Para mim, não é: fui colega do Atem enquanto estudava na Bélgica e, mais tarde, em França, tive como amigo o Mustafa. Fui muitas dezenas de vezes ao &lt;em&gt;Le Soleil&lt;/em&gt;, um &lt;em&gt;snack-bar&lt;/em&gt; palestiniano no sul de Paris. Tive essa sorte.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas não é preciso conhecer nenhum palestiniano pessoalmente para perceber que são seres humanos. Gente que Israel trata como carne para canhão — uma expressão que já nem faz sentido, tal é a gravidade da fome. São pessoas de pele, ossos e de uma humanidade que teimamos em não querer ver. Nos Açores, apesar da forte tradição cristã, são muitos os que desprezam o que se tem vindo a passar em Belém, Jerusalém e no restante dos territórios ocupados.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Aliando-se à nossa falta de interesse, a liderança israelita faz o que pode para impedir que o genocídio em Gaza chegue aos olhos do mundo: &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/aug/11/funeral-held-for-anas-al-sharif-and-other-journalists-killed-in-israeli-strike&quot;&gt;através da proibição da entrada de jornalistas internacionais em Gaza e do assassínio de pelo menos 186 jornalistas palestinianos, segundo a ONG estadunidense &lt;em&gt;Committee to Protect Journalists&lt;/em&gt;. Um estudo da &lt;em&gt;Watson School of International and Public Affairs&lt;/em&gt; afirma que foram assassinados mais jornalistas em Gaza do que o total dos que foram mortos no conjunto de ambas as guerras mundiais, da guerra do Vietname, das guerras na Jugoslávia e da guerra do Afeganistão&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Domingo passado, &lt;a href=&quot;https://cpj.org/2025/08/israel-kills-al-jazeera-journalists-in-targeted-gaza-city-airstrike/&quot;&gt;seis trabalhadores dos &lt;em&gt;media&lt;/em&gt; foram mortos numa tenda de imprensa no exterior do hospital &lt;em&gt;al-Shifa&lt;/em&gt;, num ataque prontamente assumido pelas forças israelitas&lt;/a&gt;. Um desses mártires era o repórter da Al Jazeera Anas al-Sharif, de 28 anos e pai de duas crianças. Al-Sharif deixou preparado &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/commentisfree/2025/aug/11/anas-al-sharif-al-jazeera-journalist-killed-gaza-israeli-airstrike&quot;&gt;um comunicado, que o &lt;em&gt;The Guardian&lt;/em&gt; publicou postumamente, em que pedia que não nos esqueçamos de Gaza&lt;/a&gt;. Já não vamos a tempo de impedir a morte deste jornalista, mas cabe-nos lutar pelo futuro de Sham e de Salah, seus filhos. E pelo de tantos outros órfãos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Se a Palestina nos é “distante”, o Estado que a tenta destruir é-nos próximo. &lt;a href=&quot;https://policy.trade.ec.europa.eu/eu-trade-relationships-country-and-region/countries-and-regions/israel_en&quot;&gt;A União Europeia (UE) é o maior parceiro comercial de Israel: mais de um terço das suas importações têm origem na UE, e mais de um quarto das suas exportações tem a UE como destino&lt;/a&gt;. No plano da cultura e do desporto, Israel participa na Eurovisão e é membro da UEFA — tendo o Maccabi Haifa e o Hapoel Beer Sheva participado na qualificação para a UEFA Conference League, juntamente com o Santa Clara.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;No que diz respeito à associação entre Portugal e Israel, deve notar-se que, em 2023, os israelitas contabilizaram 40% dos adquirentes da nacionalidade portuguesa. Foram mais de 16 mil — comparando com cerca de 3 mil de adquirentes para o conjunto dos restantes países asiáticos. &lt;a href=&quot;https://www.pordata.pt/pt/estatisticas/migracoes/populacao-nacional-e-estrangeira/adquirentes-de-nacionalidade-por-sexo&quot;&gt;Os dados do INE revelam que, entre 2020 e 2023, 70 mil israelitas passaram a ser portugueses&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Assim, a capacidade de influência que Portugal e a UE têm sobre Israel é incomparável à que temos sobre países como a Coreia do Norte, com que não temos relações. Portugal tem a obrigação de usar todos os meios não-violentos que tem ao seu dispor para pressionar o Estado genocida a acabar com as atrocidades.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O &lt;a href=&quot;https://eur-lex.europa.eu/legal-content/EN/TXT/HTML/?uri=CELEX:22000A0621(01)&quot;&gt;acordo de associação entre a UE e Israel&lt;/a&gt;, que rege as trocas comerciais entre ambas as partes, estipula no seu artigo segundo o respeito pelos direitos humanos. Como tal, espera-se que os nossos governantes, tanto a nível regional como nacional, se manifestem a favor da sua suspensão — até que Israel respeite os direitos humanos. Tanto Espanha como a Irlanda já defenderam esta suspensão, que causaria graves problemas à economia israelita. Aproveitemos a proximidade a Israel para defender, com dentes mas sem armas, os direitos humanos.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 14 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://mesquita.xyz/jornalistas
      
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      <item>
        <title>Israel is wiping out Gaza’s journalists – and it’s no longer even hiding it [by Jodie Ginsberg]</title>
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        <pubDate>Wed, 13 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://www.theguardian.com/commentisfree/2025/aug/13/israel-killing-gaza-journalists-anas-al-sharif
      
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      <item>
        <title>Eletricidade dos Açores</title>
        <description>&lt;p&gt;Segundo a &lt;a href=&quot;https://www.ren.pt/pt-pt/media/noticias/recorde-de-producao-de-renovaveis-abastece-71-do-consumo-de-eletricidade-em-2024&quot;&gt;REN&lt;/a&gt;, as fontes de energia renováveis (FER) abasteceram 71% do consumo nacional em 2024, &lt;a href=&quot;https://www.dgeg.gov.pt/media/aqmpm3cf/dgeg-arr-2025-06.pdf&quot;&gt;um cenário que nos coloca como o quarto país da UE com maior incorporação de FER na produção de energia elétrica&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Pelos Açores, a situação é muito pior, com a EDA a reportar que, entre janeiro e junho deste ano, apenas 35% da eletricidade açoriana teve origem em renováveis. Existe uma grande disparidade entre ilhas, com a Graciosa a liderar, com 69% de FER, seguida pelas Flores (57%), São Miguel (47%), Terceira (25%) e Pico (12%). Nas restantes ilhas, a contribuição das FER é inferior a 10%.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A maior parte da nossa eletricidade é gerada queimando combustíveis fósseis, principalmente o fuelóleo. Para além dos graves problemas ambientais causados, a compra do fuelóleo é altamente problemática &lt;a href=&quot;https://mesquita.xyz/bencom&quot;&gt;por ser feita, em exclusividade e a preços inaceitáveis, à BENCOM — detida em 100% pelo Grupo Bensaúde (GB), que também tem 40% da EDA&lt;/a&gt;. Entre 2010 e 2021, a EDA pagou €22M acima do preço aceite pela Entidade Reguladora dos Serviços Energéticos (ERSE), como demonstrado pela &lt;a href=&quot;https://app.parlamento.pt/webutils/docs/doc.pdf?path=6148523063484d364c793968636d356c6443397a6158526c63793959566b786c5a79394562324e31625756756447397a554756795a3356756447467a556d5678645756796157316c626e527663793878553077764e5455344e5441355a4449745a6d4e68595330304e7a63354c5467335a544d744e546b325a6d597a4e6d4535596a41334c6e426b5a673d3d&amp;amp;fich=558509d2-fcaa-4779-87e3-596ff36a9b07.pdf&amp;amp;Inline=true&quot;&gt;resposta&lt;/a&gt; que esta deu, em 2022, ao requerimento do BE na Assembleia da República (&lt;a href=&quot;https://www.parlamento.pt/ActividadeParlamentar/Paginas/DetalhePerguntaRequerimento.aspx?BID=123572&quot;&gt;10-EI/XV/1&lt;/a&gt;). Mais: em setembro passado &lt;a href=&quot;https://acores.bloco.org/noticias/psd-e-chega-rejeitam-audicao-da-erse-e-impedem-escrutinio-sobre-ajuste-direto-de-50-milhoes&quot;&gt;ambas as partes assinaram um ajuste direto de €50M para 9 meses de fornecimento, com um preço €5M acima do que o regulador considera justo&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Sendo a EDA maioritariamente pública (50,1%), a produção de eletricidade é, em grande parte, determinada pela vontade política. É pena que esta continue a faltar no que toca a enfrentar os interesses do GB.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Para além deste aspeto, a produção de eletricidade é necessariamente condicionada pela geografia. Utilizando o mesmo combustível, a produção de eletricidade será mais custosa no Corvo do que em São Jorge, por uma questão de escala. Sendo a eletricidade um bem essencial, decidiu-se que estas diferenças de custos na produção não deveriam ser refletidas nos custos imputados aos consumidores — o mesmo preçário da EDA vigora para toda a Região, com preços mais baixos do que os que seriam verificados num mercado livre.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A eletricidade só não sai muito mais cara aos açorianos devido à existência de um mecanismo, imposto pela ERSE, de compensação tarifária. Este subsídio serve, em princípio, para que a EDA seja uma empresa viável, enquanto pratica preços que são comparáveis aos do resto do território nacional.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mas a compensação tarifária tem ido muito além disso: nos últimos dez anos (2015-2024), permitiu que a EDA acumulasse mais de €150M em lucros, num período em que lhe foram transferidos mais de €700M por esta via. A República transferiu para a EDA &lt;a href=&quot;https://portal.azores.gov.pt/documents/36626/11231613/EDA+R%26C+2023.pdf/e4b82e51-9d41-db83-66d8-c043df9222e6?version=1.0&amp;amp;t=1724843602658&quot;&gt;€115M em 2022, €101M em 2023&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.noticiasaominuto.com/economia/2776242/grupo-eda-com-resultados-liquidos-positivos-de-10-4-milhoes-de-euros&quot;&gt;€111M em 2024&lt;/a&gt; — valores que representam cerca de 40% do volume de vendas do Grupo EDA.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Fosse a EDA pública, era tirar o dinheiro do bolso republicano e pô-lo no bolso autonómico. Não é: o GB detém 40% e a EDP detém 10%. Isto significa que €60M dos lucros da EDA foram diretamente para o GB e €15M para a EDP — dinheiro público que deveria ter sido investido na educação ou na saúde.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Assim, o Estado subsidia os lucros absurdos da BENCOM — porque só com a compensação tarifária pode a EDA comprar-lhes o combustível a preços tão altos — e, ainda, os da EDA. O GB ganha duas vezes; o erário público perde duas; e a boa-fé dos contribuintes diminui.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Com a discussão da revisão da lei das finanças regionais em curso, agravada pelos enormes défices do governo Bolieiro, aqui está uma moeda de troca para a negociação com a República: reduzam as transferências da compensação tarifária, já que grande parte é desviada.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 07 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://mesquita.xyz/eletricidade
      
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      <item>
        <title>‘Heartbreaking’: a London surgeon on the trials of operating in a Gaza hospital</title>
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        <pubDate>Tue, 05 Aug 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        https://www.theguardian.com/world/2025/aug/05/london-surgeon-trials-operating-gaza-nasser-hospital
      
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      <item>
        <title>A lucidez de Milton Friedman</title>
        <description>&lt;p&gt;Na semana passada, enquanto estive na Graciosa, ouvi os meus avós, que vivem lá, queixarem-se da falta de gente na ilha — em particular, gente jovem. Uma realidade que é comum a várias das nossas ilhas mais pequenas.
Nesses dias, interagi com cerca de duas centenas de desconhecidos com o objetivo de organizar uma conversa política no centro da vila. Os estrangeiros com quem me cruzei eram, na sua grande maioria, turistas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nessas conversas, o tema que os locais mais frequentemente puxaram foi o da imigração. Numa ilha com um histórico de muita emigração, muitas pessoas pareceram-me preocupadas, quando não mesmo revoltadas, com a chegada a Portugal de trabalhadores da Índia, do Bangladesh, do Nepal, &lt;em&gt;et cetera&lt;/em&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nas nossas ilhas, não sentimos desconforto por ter vizinhos novos com costumes diferentes: praticamente nem os temos. O que parece incomodar é o aspeto financeiro de estarmos a pagar impostos para, alegadamente, sustentar gente a quem tudo é entregue de mão beijada. Disseram-me: “a pensão da minha mãe teve cortes enormes com a &lt;em&gt;troika&lt;/em&gt;, e vêm esses e andamos a dar-lhes milhares, sem sequer trabalharem” e “o meu problema não são os imigrantes legais; agora esses subsídios todos aos ilegais é que não pode ser!”. Quanto à logística de entregar subsídios a quem o Estado ignora estar por cá, deixo à imaginação de cada um.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Temos, evidentemente, um problema grave relacionado com a imigração. Desengane-se quem acha que esta desinformação e estes mitos sobre os migrantes se devem ao acaso ou à estupidez. Estas fábulas dão um jeitão aos muito poucos que têm muito dinheiro e poder — e que fazem por as disseminar.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Vídeos de imigrantes (ou romani) ricos e malandros, cheios de notas e carros bons, servem um duplo propósito. O primeiro é permitir levar a cabo políticas chamadas de “anti-imigração”, mas que mais não fazem do que dificultar a regularização das pessoas, substituindo uma força laboral de imigrantes legais por imigrantes ilegais.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Conforme explicou lucidamente Milton Friedman — Nobel da Economia adorado por muitos liberais —, do ponto de vista dos empregadores, os imigrantes querem-se ilegais: “aceitam empregos que a maioria dos residentes deste país não está disposta a aceitar, fornecendo-lhes um tipo de mão de obra que eles não conseguem obter de outra maneira”. Podem ser pagos abaixo do salário mínimo, e sem necessidade de descontos para a Segurança Social. Por sair mais barata, a mão de obra ilegal cria sérios problemas aos restantes trabalhadores, que são preteridos, e dá grandes borlas aos piores patrões. Será de estranhar que a elite portuguesa financie o CH?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O segundo é torná-los bodes expiatórios das permanentes crises em que vivemos. Em vez de culparem quem contrata imigrantes em situação irregular, pagando-lhes uma miséria e assim acumulando grandes lucros, o vídeo viral — e artificial — de alguém mais moreno ostentando riqueza, leva a que sejam os imigrantes mal pagos e absolutamente precários o alvo da fúria popular.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Trata-se de uma estratégia concertada de manipulação dos sentimentos viscerais das pessoas: “ricos sempre os tivemos, e sempre trabalhámos para eles — mas vir aquele tipo e passar-me à frente é que não!”. Nos Açores, e não só, estas retóricas só servem para iludir as pessoas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A revolta face a uma economia que não serve a maioria é compreensível. Aliás, é mesmo desejável — basta-nos a lucidez que Friedman teve.&lt;/p&gt;

&lt;h2 id=&quot;palestina&quot;&gt;Palestina&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;Há duas semanas, votou-se o reconhecimento do Estado da Palestina na Assembleia Regional e na da República. O resultado foi o chumbo das propostas, com os votos contra da AD, PPM e CH. Saúdo o voto favorável de Nuno Barata (IL), em sentido contrário ao da posição nacional do seu partido.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Numa altura em que, na Palestina, crianças morrem à fome e civis são assassinados quase todos os dias na fila para obter alimento, Paulo Estevão decidiu atirar o debate para a lama, perguntando ao proponente se reconhecia o Holocausto. Só num executivo absolutamente sem escrúpulos tem Estevão condições para se manter como Secretário.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 24 Jul 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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      <item>
        <title>A Irlanda como exemplo</title>
        <description>&lt;p&gt;Quando visitei a Irlanda, reparei que era semelhante aos Açores em vários aspetos: é uma ilha verdejante no Atlântico norte, com uma população bem-humorada, com uma diáspora numerosa, com sotaque carregado e sem medo de chamar os bois pelos nomes. Até nas paisagens existem vários paralelos, como é o caso dos &lt;em&gt;Cliffs of Moher&lt;/em&gt; (um dos &lt;em&gt;ex libris&lt;/em&gt; da ilha), que fazem muito lembrar a vista que temos do miradouro de Santa Iria.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Para além disso, durante vários séculos, foi — tal como nós — administrada remotamente por um executivo colonialista. Em 1845 começou &lt;em&gt;a Grande Fome&lt;/em&gt; irlandesa, que durou cerca de cinco anos e levou à morte de cerca de um milhão de irlandeses e à emigração de outros tantos, principalmente para os EUA e Canadá. Esta fome foi muito exacerbada por fatores político-sociais — em particular pelo desrespeito que a potência colonial (Inglaterra) teve pelas vidas irlandesas.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Essa memória faz com que, hoje, a Irlanda não hesite em opor-se a potências colonialistas: em maio de 2024, reconheceu o Estado da Palestina (ao mesmo tempo que Espanha e a Noruega); mais tarde, juntou-se à África do Sul, &lt;a href=&quot;https://web.archive.org/web/20241213164714/https://www.irishtimes.com/politics/2024/12/11/government-confirms-ireland-will-intervene-in-two-cases-before-international-court-of-justice/&quot;&gt;acusando, no Tribunal Internacional de Justiça, Israel de genocídio em Gaza&lt;/a&gt;; e, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/may/26/ireland-bill-ban-imports-from-occupied-palestinian-territories&quot;&gt;em maio passado, anunciou legislação banindo importações de produtos originários de colonatos nos territórios palestinianos ocupados&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em Lisboa, a direita tem impedido o reconhecimento português do Estado da Palestina, com desculpas esfarrapadas. Mas e o que dizer do &lt;a href=&quot;https://mesquita.xyz/gaza-18-maio&quot;&gt;apoio que tem sido dado a Israel a partir dos Açores&lt;/a&gt;? Felizmente, nunca vivemos sob ocupação, nem nunca se tentou um genocídio contra o nosso povo. Ainda assim, a memória do passado que nos levou a reclamar a nossa autonomia deve impelir-nos a uma profunda solidariedade para com os palestinianos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esta semana, o BE deu entrada na nossa Assembleia Legislativa (mais) um &lt;a href=&quot;http://base.alra.pt:82/4DACTION/w_pesquisa_registo/3/3722&quot;&gt;projeto de resolução que a insta a defender “o reconhecimento do Estado da Palestina pelo Governo da República, de forma imediata e incondicional, com as fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias de 1967, em conformidade com o Direito Internacional e com as resoluções das Nações Unidas” e a dar conhecimento disso à Assembleia da República e Governo da República&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Dado ter sido solicitada deliberação de urgência, o projeto de resolução deve ser votado ainda esta semana. São de esperar os votos favoráveis do BE, PS e PAN, tendo em conta as posições que estes partidos têm tomado na República — sendo que estes representam 25 votos favoráveis, dos 29 necessários.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Acredito existirem pelo menos mais quatro deputadas/os na nossa assembleia comprometidas/os com os direitos humanos. E, por que a democracia representativa é levada a cabo por representantes com nome, interpelo diretamente
Adolfo Vasconcelos, Ana Jorge, Carlos Freitas, Carlos Rodrigues, Cecília Estácio, Délia Melo, Flávio Soares, Francisco Gaspar, Jaime Vieira, João Bruto da Costa, Joaquim Machado, José Leal, Luís Garcia, Luís Raposo, Luís Soares, Nídia Inácio, Paulo Chaves, Paulo Gomes, Paulo Silveira, Paulo Simões, Ruben Cabral, Sabrina Furtado, Salomé Matos (eleitos pelo PSD); Catarina Cabeceiras e Pedro Pinto (pelo CDS-PP); e aos deputados únicos Nuno Barata (IL) e João Mendonça (PPM) para que façam aprovar este projeto de resolução, que mais não faz que reiterar as resoluções da ONU. Numa época em que a lei parece ser a da força, cabe-nos — &lt;em&gt;cabe-vos&lt;/em&gt; — defender os direitos humanos e o direito internacional. Estamos atentos. Tenham coragem.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 10 Jul 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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      <item>
        <title>Declaração IX convenção BE Açores</title>
        <description>&lt;p&gt;Somos uma região autónoma com um lema radical inscrito no nosso brasão, mas não o temos levado a sério: “Antes morrer livres que em paz sujeitos.”&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Com efeito, não só somos a região mais pobre, mais desigual e com menos escolaridade, como somos também aquela em que menos gente vota.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O nosso lema tem sido só garganta. Pelo menos, para a maioria.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O Bloco Açores tem apresentado muito trabalho na assembleia regional e nos órgãos onde se encontra representado. Somos um partido pequeno, mas que apresenta resultados melhores que os outros com assento na assembleia. É o Bloco que tem, consistentemente, protegido os interesses dos açorianos face ao extrativismo do Grupo Bensaude e à complacência do governo regional. Foi o Bloco que alertou para os ajustes diretos de 50M assinados num sábado. Foi o Bloco que conseguiu a renegociação dos juros pagos pela região à EDA, numa poupança efetiva de cerca de 1M de euros. Temos sido um partido consequente. Um partido que tanto denuncia como propõe; que não só combate como também constrói.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Por isso, o que podemos pedir aos nossos funcionários e aos nossos representantes eleitos é que continuem o trabalho que têm vindo a desenvolver, com a dedicação que têm vindo a demonstrar.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A nossa prioridade deve estar em fazer crescer o partido e, principalmente, em fazer crescer a esquerda. Para isso, temos de exigir mais a nós próprios — uns aos outros, aos militantes aqui presentes.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Precisamos que cada camarada milite em casa, no café, nos grupos desportivos, nas filarmónicas, nas paróquias — na sua comunidade. Precisamos conhecer a realidade do nosso arquipélago, ouvindo os nossos concidadãos, e transmitir uma mensagem de esperança.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Façamos os possíveis para politizar mais gente, porque os Açores querem-se democráticos, com uma sociedade civil plural e ativa. Organizemo-nos, dentro e fora do partido. Façamos pontes com os nossos aliados e mantenhamos o contacto uns com os outros.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Temos de continuar a apresentar uma alternativa ao status quo, aos interesses instalados, ao capitalismo selvagem e de baixos salários. Quantos mais formos, e quanto mais ativos formos nesta luta, melhor será a alternativa que teremos a apresentar. Faz toda a falta. Fará toda a diferença.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Concluo lembrando que só será possível a construção de uns Açores dignos, tendo como alicerces firmes os direitos humanos. Não aceitamos que a nossa região assobie para o lado enquanto os ‘nossos’ ‘aliados’ da NATO facilitam o genocídio. Não aceitamos a cobardia de cumprimentar embaixadores israelitas sem uma oposição intransigente face ao genocídio. Exigimos, no mínimo, uma região inequivocamente solidária com o povo palestiniano.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Açores livres, Palestina livre!&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Viva o Bloco; viva a Esquerda; vivam os Açores; Viva a dignidade e vivam os direitos humanos!!&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Sat, 05 Jul 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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      <item>
        <title>Falta arroz doce!</title>
        <description>&lt;p&gt;No final da faixa “Pela Música Pt2”, do álbum Serviço Público, Sam the Kid faz um apelo: “Não tragam pudim, o pudim já está na mesa. Tragam arroz doce, falta arroz doce!”. Nesta música, é feita uma crítica feroz à indústria musical instalada, movida por interesses financeiros — o “pudim” —, e alimentada a esperança numa alternativa emancipatória: o arroz doce.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Esta metáfora aplica-se à política e, em particular, às miseráveis lideranças que têm estado na ordem do dia: começando pela de Netanyahu, passando pelas de Putin e Trump, pelas lideranças do Hamas e do Irão, chegando às de Von der Leyen e da &lt;a href=&quot;https://www.aljazeera.com/news/2025/6/24/trump-shares-texts-from-nato-chief-praising-decisive-action-on-iran&quot;&gt;NATO&lt;/a&gt;. Apesar do muito que as distingue, partilham um denominador comum: governam em função de interesses pessoais ou financeiros, não do bem comum. De nenhuma espero mudança genuína.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O genocídio que Israel leva a cabo em Gaza ilustra bem esta dinâmica. No início deste mês, era notória uma ligeira pressão europeia sobre o governo israelita. Este tentou dissipá-la ao começar uma guerra com o Irão. Foi recompensado: &lt;a href=&quot;https://apnews.com/article/israel-palestinians-two-state-conference-un-france-50d54d68040ea58dc6f533e33df3d0cd&quot;&gt;Macron adiou indefinidamente a conferência sobre a solução dos dois Estados (que estava marcada para 17-20 de junho)&lt;/a&gt; e Von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, reiterou, &lt;a href=&quot;https://x.com/vonderleyen/status/1933644013430845633&quot;&gt;num &lt;em&gt;tweet&lt;/em&gt; delirante, o “direito que Israel tem de se defender”&lt;/a&gt;, enquanto as forças de ocupação prosseguem com a matança, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/jun/16/gaza-food-centre-shooting-israel-ghf&quot;&gt;dia após dia&lt;/a&gt;, de &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/jun/18/israeli-forces-kill-injure-palestinians-food-trucks-gaza-officials&quot;&gt;dezenas de palestinianos&lt;/a&gt; na &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/jun/03/palestinians-killed-israeli-fire-aid-point-gaza-officials-say&quot;&gt;proximidade dos pontos de (&lt;em&gt;suposta&lt;/em&gt;) distribuição&lt;/a&gt; de ajuda humanitária.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Também por cá, não nos faltam homens em posições de liderança absolutamente incapazes, na sua cobardia, de insurreição face ao &lt;em&gt;status quo&lt;/em&gt; de absoluto desrespeito pelos direitos humanos. De &lt;a href=&quot;https://mesquita.xyz/kathrin&quot;&gt;Montenegro a Rangel&lt;/a&gt;, passando por &lt;a href=&quot;http://base.alra.pt:82/Doc_Req/XIIIrequeresp95.pdf&quot;&gt;Bolieiro&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;http://base.alra.pt:82/4DACTION/w_pesquisa_registo/8/19939&quot;&gt;Luís Garcia&lt;/a&gt; e chegando a &lt;a href=&quot;https://www.acorianooriental.pt/pagina/edicao-impressa/2025-06-21/artigo/374879&quot;&gt;Paulo&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.cm-pontadelgada.pt/pages/541?news_id=5022&quot;&gt;Pedro&lt;/a&gt; Nascimento Cabral: ei-los os &lt;em&gt;yes-men&lt;/em&gt;, que preferem a segurança míope da anuência à coragem da dissidência.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A necessidade de mudança é evidente, mas faltam-nos redes organizadas de cidadãos empenhados. Interessa-me a construção de um futuro em que muita gente exerça, quotidiana e criticamente, a sua cidadania. Com esse objetivo em mente, tenho participado no desenvolvimento do &lt;em&gt;site&lt;/em&gt; &lt;a href=&quot;https://açores.net&quot;&gt;https://açores.net&lt;/a&gt; (com cedilha), que facilita o escrutínio das instituições regionais — Governo, Assembleia e autarquias — e disponibiliza análises diversas. É um espaço que se quer plural e participado, para que possa ser um contributo para a missão de criar uma sociedade verdadeiramente democrática.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Nesse sentido, saúdo as candidaturas de rotura que concorrem às autarquias e freguesias com o intuito de envolver, tanto quanto possível, a sociedade civil. Conto que façam campanhas de proximidade, ouvindo as pessoas — em particular, quem tende a abster-se; e espero que se batam pela implementação de assembleias cidadãs. Há muito trabalho pela frente, mas valerá a pena.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Numa época de retrocessos, ajuda olhar para os bons exemplos que nos chegam de outras partes do globo. De França, temos a eurodeputada &lt;a href=&quot;https://www.esquerda.net/artigo/isolamento-e-ameacas-de-morte-eurodeputada-relata-condicoes-da-detencao-em-israel/95270&quot;&gt;Rima Hassan&lt;/a&gt;, que arriscou a sua segurança ao embarcar no veleiro Madleen com o objetivo de levar ajuda humanitária a — ou, pelo menos, de chamar atenção para — Gaza. De Nova Iorque, temos &lt;a href=&quot;https://jacobin.com/2025/06/zohran-mamdani-canvassing-nyc-mayor&quot;&gt;a mobilização de mais de 25 mil voluntários&lt;/a&gt; para a &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/us-news/2025/jun/24/new-york-mayoral-primary-results&quot;&gt;campanha (em curso) de Zohran Mamdani à câmara municipal&lt;/a&gt;. À escala dos Açores, seriam mais de 700 voluntários. Ainda não temos uma rede destas, mas lá chegaremos, com vontade coletiva.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Falta o arroz doce, mas os ingredientes e as receitas estão aí. Metamos mãos à obra, porque de pudim, francamente, já chega.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 26 Jun 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        <title>Entre São Miguel e o Irão</title>
        <description>&lt;p&gt;Sábado passado tive a sorte de assistir ao filme &lt;a href=&quot;https://tribecafilm.com/films/honeyjoon-2025&quot;&gt;Honeyjoon&lt;/a&gt;. O filme foi gravado em São Miguel e teve como inspiração episódios biográficos de Lilian Mehrel, a artista de ascendência curdo-iraniana que o escreveu e dirigiu.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;É um filme no qual abundam as nossas paisagens, que retrata — através de uma procissão, com filarmónica, na Maia — a nossa cultura, e que tem vários momentos divertidos. Para além disso, aborda a revolução iraniana de 1979 (levada a cabo por fanáticos religiosos e com terríveis consequências para a liberdade das iranianas) e &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/global-development/gallery/2023/sep/14/mahsa-amini-and-a-year-of-brutality-and-courage-in-iran-in-illustrations&quot;&gt;a onda de protestos no Irão, na sequência da morte de Mahsa Amini&lt;/a&gt;, em 2022, às mãos da “polícia da moralidade”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O filme foca-se numa relação entre mãe e filha, durante o período de luto por que passam, após a morte do marido/pai. Dado o encanto do defunto com os Açores, as duas viajam até São Miguel para comemorar o primeiro aniversário da sua morte. Vale muito a pena vê-lo e espero que chegue aos cinemas açorianos em breve!&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A existência deste filme evidencia algo que tende a escapar-nos: apesar dos mais de 6 mil quilómetros que separam São Miguel do Irão, existem pessoas com ligações profundas a ambos os sítios. A partir da sua história pessoal, e inspirada pela nossa natureza e pelas nossas gentes, Mehrel criou um filme fantástico que une o Irão aos Açores.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mais perto do que o Irão está Gaza. Compreendo o desejo de separar o mundo em que vivemos do mundo em que ocorre o genocídio. Desconfio que a passividade com que se assiste aos horrores que por lá se sucedem se deve, não tanto à distância, mas principalmente a uma vontade de remeter a Palestina para um plano abstrato.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Em Gaza, vivem pessoas reais, como a pediatra &lt;a href=&quot;https://mesquita.xyz/alaa-al-najjar&quot;&gt;Alaa al-Najjar&lt;/a&gt;, sobre quem escrevi previamente. Lá, são assassinadas, quotidianamente, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/news/ng-interactive/2025/jun/07/story-of-a-mother-shot-dead-searching-for-food-in-gaza&quot;&gt;mães como Reem Zeidan&lt;/a&gt;. A história de Reem Zeidan — morta com um tiro na testa enquanto se dirigia, com a sua filha de 20 anos e filho de 12, a um ponto de distribuição de comida — é tão difícil de ler que, esta semana, não fui capaz de a escrever.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Sabemos que, por lá, a matança é sistemática e a fome generalizada. Sabemos que jornalistas e ajudantes humanitários tanto são impedidos de entrar como são mortos. Sabemos que são fanáticos religiosos, como &lt;a href=&quot;https://www.bbc.com/news/articles/c7066e7z9k4o&quot;&gt;Daniella Weiss&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://apnews.com/article/israel-palestinians-jerusalem-nationalist-march-ben-gvir-0c6471592182aac205115150d1b3a552&quot;&gt;Itamar Ben-Gvir&lt;/a&gt;, os instigadores dos massacres. E sabemos que, ainda assim, &lt;a href=&quot;https://www.dw.com/en/amid-calls-for-arms-embargo-who-supplies-israels-weapons/a-72675978&quot;&gt;os nossos aliados da NATO fornecem armas às forças de ocupação e extermínio israelitas&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Do mesmo modo que temos acesso a fotos e vídeos da catástrofe em Gaza, os palestinianos sabem das posições que tomamos no Ocidente. É desolador ver, &lt;a href=&quot;https://www.aljazeera.com/program/investigations/2024/10/7/war-crimes-in-gaza-i-al-jazeera-investigations&quot;&gt;enquanto alguém filma um bombardeamento ou um tiroteio, outra vítima reagir: “Estás a filmar para quem? Não querem saber de nós!”&lt;/a&gt;. E quando, para variar, o Ocidente tenta ajudar Gaza — como foi o caso do navio &lt;a href=&quot;https://www.aljazeera.com/news/liveblog/2025/6/4/madleen-gaza-flotilla-live-greta-thunberg-activists-to-arrive-on-june-7&quot;&gt;humanitário Madleen&lt;/a&gt; — o povo palestiniano acompanha: &lt;a href=&quot;https://x.com/DropSiteNews/status/1931557024564723730&quot;&gt;“Estamos a observar-vos desde Gaza. Não desligamos o ecrã”&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Mesmo estando longe, as nossas ações são consequentes. Assim, pergunto diretamente a Paulo Moniz e a Paulo Nascimento Cabral, que escrevem para este jornal: qual a justificação para o PSD não querer reconhecer, imediatamente, o Estado da Palestina? Pergunto a Pedro Nascimento Cabral se, desde a sua audiência com o embaixador sionista em julho passado, já teve a decência de mudar de posição relativamente à &lt;a href=&quot;https://www.cm-pontadelgada.pt/pages/541?news_id=5022&quot;&gt;“cooperação entre Israel e Ponta Delgada”&lt;/a&gt;. Aos candidatos às Câmaras Municipais, deixo a sugestão de tentar fazer de alguma cidade em Gaza cidade-irmã do respetivo município, mostrando-lhes solidariedade.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 12 Jun 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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        <title>A tecnologia e a tragédia da família al-Najjar</title>
        <description>&lt;p&gt;Há menos de uma semana, em Gaza, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/may/24/israeli-airstrike-kills-nine-of-gaza-doctors-10-children-reports-say&quot;&gt;um ataque aéreo atingiu a casa da pediatra Alaa al-Najjar, matando 9 dos seus 10 filhos&lt;/a&gt;. Este bombardeamento insere-se numa &lt;a href=&quot;https://www.bbc.com/news/articles/c0eq9lq7xr1o&quot;&gt;onda de mais de 100 ataques, que mataram mais de 70 pessoas em 24 horas&lt;/a&gt;.
Alaa al-Najjar estava de serviço no hospital, a tratar outras vítimas, quando recebeu os corpos das suas crianças — a mais velha com apenas 12 anos.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Victoria Rose, uma voluntária no hospital, reagiu ao vídeo das consequências do ataque, dizendo:
“O vídeo mostra as crianças a serem retiradas do fogo e estão absolutamente carbonizadas. É tão horrível”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O ataque aconteceu momentos após Hamdi al-Najjar, seu marido, ter voltado a casa depois de a ter levado ao hospital. &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/may/25/gaza-doctor-last-goodbye-nine-children-killed-airstrike&quot;&gt;Hamdi&lt;/a&gt;, também médico, &lt;a href=&quot;https://www.bbc.com/news/articles/cp8djlg3zq5o&quot;&gt;está atualmente em perigo de vida&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;O &lt;em&gt;modus operandi&lt;/em&gt; deste bombardeamento corresponde ao observado aquando do uso da ferramenta de inteligência artificial (IA) &lt;a href=&quot;https://www.democracynow.org/2024/4/5/israel_ai&quot;&gt;“&lt;em&gt;Where’s Daddy?&lt;/em&gt;”&lt;/a&gt;, que — &lt;a href=&quot;https://www.972mag.com/lavender-ai-israeli-army-gaza/&quot;&gt;conforme documentado pela investigação da publicação israelita &lt;em&gt;+972 magazine&lt;/em&gt; — notifica os militares da chegada dos seus alvos às próprias residências familiares. Segundo a reportagem do jornalista Yuval Abraham, praticamente não há supervisão humana sobre a decisão do sistema de IA de bombardear os alvos, apesar de ser sabido que, mesmo pelos critérios do exército israelita, o sistema de IA erra frequentemente.&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Ao &lt;em&gt;The Guardian&lt;/em&gt;, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2025/may/24/israeli-airstrike-kills-nine-of-gaza-doctors-10-children-reports-say&quot;&gt;Graeme Groom&lt;/a&gt;, outro cirurgião britânico voluntário no hospital, relatou que o pai das crianças “não tem ligações políticas nem militares e não parece ser proeminente nas redes sociais”.&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Groom, que operou o filho sobrevivente do casal, afirmou: “Uma vez que ambos os pais são médicos, ele parecia fazer parte do grupo [&lt;em&gt;relativamente!&lt;/em&gt;] privilegiado de Gaza, mas quando o levantámos para a mesa de operações, ele parecia ter muito menos de 11 anos”. Esta observação ilustra a atual crise humanitária que António Guterres descreveu como “a fase mais cruel” da guerra. Quando os filhos de médicos sofrem de desnutrição, como estarão os outros?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;A ONU tem afirmado repetidamente que a quantidade de ajuda que entra é insuficiente para os mais de 2 milhões de habitantes do território, tendo uma avaliação apoiada pela ONU afirmado este mês que a população de Gaza estava em “risco crítico” de &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/news/ng-interactive/2025/may/25/gaza-city-israeli-offensive-despair-hunger&quot;&gt;fome extrema generalizada&lt;/a&gt;. &lt;a href=&quot;https://www.bbc.com/news/articles/c0eq9lq7xr1o&quot;&gt;Segundo a BBC, as mães, subnutridas, não conseguem amamentar os bebés&lt;/a&gt;.&lt;/p&gt;

&lt;h2 id=&quot;especulação-spyware-e-a-conivência-europeia&quot;&gt;Especulação: &lt;em&gt;Spyware&lt;/em&gt; e a conivência europeia&lt;/h2&gt;

&lt;p&gt;A inação quase total da generalidade dos governantes europeus face ao &lt;a href=&quot;https://www.commondreams.org/news/israel-is-committing-genocide-in-gaza&quot;&gt;genocídio&lt;/a&gt; levanta uma questão perturbadora: que fatores a explicam?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Uma possibilidade especulativa é estar relacionada com o software de espionagem (ou &lt;em&gt;spyware&lt;/em&gt;) Pegasus, &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2022/mar/23/israel-ukraine-pegasus-spyware-russia&quot;&gt;desenvolvido pelo grupo israelita NSO e sob controlo do governo israelita&lt;/a&gt;. Este programa já foi usado para espiar telefones de &lt;a href=&quot;https://www.theguardian.com/world/2022/may/15/use-of-pegasus-spyware-on-spains-politicians-causing-crisis-of-democracy&quot;&gt;políticos espanhóis&lt;/a&gt; e &lt;a href=&quot;https://www.reuters.com/world/europe/polish-mayor-targeted-by-pegasus-spyware-media-2023-03-03/&quot;&gt;polacos&lt;/a&gt;, &lt;a href=&quot;https://en.wikipedia.org/wiki/Pegasus_(spyware)&quot;&gt;entre muitos outros&lt;/a&gt;. &lt;a href=&quot;https://www.reuters.com/technology/exclusive-eu-found-evidence-employee-phones-compromised-with-spyware-letter-2022-07-27/&quot;&gt;Catorze países da União Europeia já pagaram para usar este &lt;em&gt;spyware&lt;/em&gt;&lt;/a&gt;. Tendo Israel a capacidade técnica comprovada de aceder às comunicações privadas de altos quadros europeus, e sabendo esses quadros que podem estar sob vigilância, fica naturalmente a dúvida: estará a espionagem a influenciar a política externa europeia?&lt;/p&gt;

&lt;p&gt;Até quando permanecerá o Ocidente conivente com a matança destas crianças? Até quando continuaremos a assobiar para o lado, enquanto &lt;a href=&quot;https://www.dw.com/en/amid-calls-for-arms-embargo-who-supplies-israels-weapons/a-72675978&quot;&gt;os nossos parceiros militares exportam as armas com que se leva a cabo o genocídio&lt;/a&gt;? Até quando continuarão &lt;a href=&quot;https://mesquita.xyz/gaza-18-maio&quot;&gt;os nossos governantes a cumprimentar os embaixadores do genocídio&lt;/a&gt;? Exige-se a defesa do povo palestiniano, enquanto ainda o há.&lt;/p&gt;
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        <pubDate>Thu, 29 May 2025 00:00:00 +0000</pubDate>
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