Há cerca de sete anos que acompanho o podcast de jornalismo de investigação Fumaça, desde que ouvi a sua primeira série documental. E, no final de 2022, fui viver mesmo em frente à sua redação. Vi-os trabalhar — muitas horas, em autogestão, sem patrão nem acionistas — nos preparativos finais para o lançamento de Desassossego, uma série sobre saúde e doença mental que ouvi com atenção. Foi por essa altura que me tornei membro da comunidade Fumaça, passando a contribuir mensalmente com alguns euros.

A equipa, pequena, conta com o mariense Nuno Viegas. Oito séries publicadas, dezenas de prémios, e alguns milhões de audições. Tudo com 28 mil euros mensais, sem publicidade nem dependência do Estado: metade vem dos quase dois mil membros, o resto de bolsas publicamente declaradas. As séries levam meses, quando não anos, de preparação. Episódios, transcrições e fontes estão disponíveis para toda a gente em https://fumaca.pt.

Assumem-se como contrapoder dedicado ao escrutínio de sistemas de opressão e recusam o mito da neutralidade, expondo abertamente as suas subjetividades. Num momento em que a generalidade dos media nos afoga em tolices e comentariado estupidificante, o Fumaça aposta na alternativa: fala de trabalho e precariedade, de migração, de saúde mental. Assim, o nome escolhido — invocando a frase “É apenas fumaça!”, proferida por Pinheiro de Azevedo em novembro de 1975 — cheira a provocação à concorrência.

A sua penúltima série, Quase da Família, conta em quatro episódios a história das empregadas domésticas em Portugal. De 1867 a 1980, uma única lei regulou a profissão: cento e treze anos durante os quais raparigas de sete a onze anos foram enviadas pelos pais para casas burguesas, faziam jornadas até dezasseis horas, dormiam em despensas sem janela e recebiam, nos primeiros anos, apenas comida. Em 1979, três mil mulheres, muitas analfabetas, reuniram-se no primeiro Congresso Nacional das Trabalhadoras do Serviço Doméstico. A série ouve estas mulheres — Conceição Ramos, que ajudou a fundar o sindicato em 1974, e Carina Pereira, hoje a fazer limpezas em Penafiel — e também a socióloga Mafalda Araújo. Hoje, serão cerca de 200 mil as trabalhadoras domésticas registadas em Portugal. Em 2022, 90% recebia menos de 610 euros. Na revisão legislativa de 2023, a maioria dos partidos preferiu manter o regime à parte do Código do Trabalho. Só o BE, que apresentou uma proposta nesse sentido, e o PCP foram favoráveis à sua integração. Fica evidente como o trabalho doméstico nunca foi tratado como trabalho a sério pela maioria.

Tenho aprendido imenso ao ouvi-los. A série mais recente, Indústria da Ajuda na Palestina, resulta de quatro anos de investigação. Na Cisjordânia e no Líbano, ouvem-se dezenas de palestinianos — académicos, ativistas, ex-funcionários da ONU, residentes de campos de refugiados. A série abre com uma secção de premissas que explica as opções de linguagem: o uso do termo “colonização” e a razão por que evitam o termo “terrorismo”, por exemplo. Desde Oslo (1993), chegaram à Palestina mais de 50 mil milhões de dólares em ajuda. Trinta anos depois — antes do genocídio em Gaza —, a vida era pior: o desemprego subiu de 10,7% para 24,1%; a pobreza, de 27% para 33%; os colonos na Cisjordânia passaram de 270 mil para mais de 730 mil. Cerca de 87% da ajuda acaba na economia israelita. As ONG financiadas pela Europa perdem o financiamento se falarem de “apartheid” ou “Nakba”, ou se apoiarem o boicote a Israel. O balanço: nem Estado palestiniano, nem estabilidade, nem paz.

O Fumaça faz jornalismo de excelência: fundamentado, rigoroso, independente e relevante. Muito obrigado!