O tema desta edição especial de Natal é “nossa Humanidade”, aquilo que nos une. Tendo a pensar no assunto no sentido inverso: parece-me que são exatamente essas ligações a nossa Humanidade partilhada. Muito mais interessante do que os bens ou os conhecimentos que qualquer pessoa possui é o modo como se relaciona com o seu meio: o cuidado que dá a quem lhe é próximo, as amizades que cultiva e as causas que a movem.

Estou certo de que a enorme maioria das pessoas está muito mais preocupada com a saúde da sua família e com o bem-estar dos seus amigos do que com o dinheiro que tem no banco ou o carro que conduz. Que a maioria de nós se vê a si mesma como parte de uma comunidade maior: seja familiar ou outra.

No entanto, a genética demora muito a evoluir e sofremos da miopia do costume: longe da vista, longe do coração. Sim, eu cuido da minha família; os meus familiares são amigos dos seus amigos; os meus amigos são boas pessoas e ajudam os seus vizinhos. E nem nos surpreendemos quando é algum desconhecido, de carne e osso, que nos dá o jeito que nos permite desenrascar. Mas aquele pessoal imigrante só vem cá para ficar com os nossos trabalhos. Aqueles árabes odeiam os judeus, odeiam os católicos, odeiam o Ocidente. Não digo que todos, mas muitos. Temos medo.

Não é que queiramos ser violentos, mas se eles vêm aí para ficar com o que é nosso, melhor é que fiquem retidos na Turquia, sejam enviados para a Albânia ou se afoguem no Mediterrâneo. Não é que queiramos ser violentos, mas que fiquem nos seus países, onde a miséria está por toda a parte e os empregos bem pagos não existem. É o chamado dilema do prisioneiro: se estou convencido que o outro se prepara para a violência, seja para se defender — caso eu também me prepare —, seja para nos tirar o que temos — caso não nos preparemos —, então o melhor é agredir primeiro.

Quem tem ao pé de si uma loja de conveniência gerida por imigrantes sabe que aqueles seus conhecidos em particular, aqueles do seu bairro, são atenciosos. Nas Avenidas Novas, na rua da Beneficência, tratam bem o Meez e muito bem trata o Meez os seus fregueses. Mudou-se para Lisboa há cerca de 10 anos. Veio sozinho, como de costume, deixando a mulher e a filha no Bangladesh. Entretanto, o negócio permitiu-lhe trazê-las e vivem os três num apartamento perto da loja. Os imigrantes concretos são bem-vindos — os abstratos, um problema.

Em 1870, Marx escreveu com perspicácia: “todos os centros industriais e comerciais em Inglaterra possuem agora uma classe trabalhadora dividida em dois campos hostis: ingleses e irlandeses. O trabalhador inglês comum odeia o irlandês enquanto concorrente que baixa o seu nível de vida.” Aos maus patrões serve-lhes a narrativa de que há por aí uns “ilegais” que trabalham calados por tuta e meia. E não faltam canalhas que gastam o demasiado tempo de antena que têm a pintar um cenário em que esse grupo abstrato de imigrantes é a grande ameaça à vida — e ao sustento — das pessoas trabalhadoras.

O que nos faz falta é um novo enquadramento. Um enquadramento solidário — palavra que significa “que tem interesses e responsabilidades recíprocos”. Ora, os interesses dos trabalhadores, imigrantes ou não, são os mesmos: uma vida boa, confortável, para si e para os seus. Migrantes ou não, são os trabalhadores que fazem funcionar as escolas, hospitais e serviços de que dependemos. Tem-nos faltado o sentido de responsabilidade, tolhido pelo medo que nos instilam.

Se confiamos na maioria das pessoas que conhecemos, façamos por confiar nos restantes. São como nós — fazem o que podem pelos seus e, quando possível, facilitam a vida dos vizinhos. Não nos deixemos dividir. São estas responsabilidades e interesses partilhados a base da nossa Humanidade. E o que nos une ao próximo, também nos une a quem está mais longe.

Feliz Natal!