Todas as sextas-feiras, o Guardian publica «A semana à volta do mundo em 20 fotografias» — uma rúbrica que nos mostra o mundo como é. As imagens da última edição incluem a celebração do Eid (a festa muçulmana que marca o fim do Ramadão) em Dacar, as cerejeiras em flor em Tóquio, um espectáculo de drones em Seul e os aniversários do golpe militar na Argentina (1976) e do massacre de Sharpeville (1960) na África do Sul.

Mas as atrocidades não se ficaram pelo século XX — e o bom jornalismo desinstala. Nas últimas semanas, a rúbrica tem mostrado a violência desumana que se vem desenrolando no Sudão, no Sudão do Sul, na Ucrânia, no Irão, no Líbano e na Palestina.

Há duas semanas, uma fotografia mostrava um menino de oito anos, Mustafa Bani Odeh, durante o funeral da sua família na Cisjordânia. Mustafa e o seu irmão Khaled sobreviveram ao ataque que matou os pais e dois irmãos mais novos. A família — desarmada — tinha ido a Nablus, uma cidade próxima, comprar roupa para o Eid, e voltava para casa quando uma unidade israelita, à paisana, em carro com matrícula palestiniana, abriu fogo sem aviso. Os quatro foram mortos com tiros na cabeça. O Crescente Vermelho — a versão muçulmana da Cruz Vermelha — acusou Israel de ter impedido as ambulâncias de chegar ao local. Depois do tiroteio, a polícia de fronteira arrastou Khaled para fora do carro, agrediu-o e disse-lhe: «Matámos cães.» Quanto à justificação oficial: alegaram ter «percepcionado uma ameaça imediata» porque o veículo acelerou.

Este assassínio está longe de ser um caso isolado. Segundo dados da ONU, as forças israelitas mataram mais de 1.400 palestinianos na Cisjordânia desde 2019, incluindo mais de 320 crianças. Nesse período, nenhum soldado foi acusado de homicídio. Nem um único.

E se antes a lei era ignorada, agora é a própria lei que codifica a barbárie: o parlamento israelita aprovou esta semana a pena de morte para palestinianos — em tribunais militares, sem unanimidade, com execução em 90 dias. A última execução em Israel foi a do nazi Adolf Eichmann, em 1962. Agora, a forca é para os palestinianos. Israel é apartheid, ocupação e selvajaria. É o pior do Ocidente — e estamos todos implicados.

Em Gaza, a escala é outra: mais de 75 mil mortos nos primeiros quinze meses deste genocídio, segundo um estudo da Lancet. E a matança continua.

Mas é também de Gaza que vem uma fotografia de Abdel Kareem Hana que mostra Khan Younis, vista de cima, ao pôr do sol durante o Ramadão. Uma mesa comprida — muito comprida — atravessa o que foi uma rua, entre escombros até onde a vista alcança. Dezenas de pessoas sentam-se para o iftar, a refeição com que os muçulmanos quebram o jejum diário durante o Ramadão. Em volta, até ao horizonte, uma cidade destruída. E mesmo assim: a mesa posta, as luzes coloridas acesas, a comunidade reunida e pronta para celebrar, para viver.

Este ano, o Ramadão e a Quaresma começaram no mesmo dia: 18 de Fevereiro, Quarta-Feira de Cinzas. Dois calendários, duas tradições, o mesmo momento de sacrifício e recolhimento — e a mesma aspiração: celebrar em comunidade. Em Jerusalém, as forças israelitas dispersaram à força os fiéis que rezavam o Tarawih — a oração nocturna do Ramadão — junto às muralhas da cidade antiga. Pela primeira vez desde 1967, a mesquita de Al-Aqsa foi encerrada durante todo o Ramadão e o Eid — e permanece fechada hoje.

A Páscoa começa amanhã. O mínimo que podemos fazer é reconhecer as cruzes que tantos muçulmanos estão a carregar, impostas pelos nossos parceiros militares e com a total conivência da Europa, de Portugal e dos Açores. O mínimo que podemos fazer é não desviar o olhar, não esquecer. O mínimo que podemos fazer é seguir o exemplo corajoso de tantos palestinianos que teimam em escolher a esperança.

Mesa do iftar em Khan Younis, Gaza, durante o Ramadão Fotografia: Abdel Kareem Hana/AP