No final do mês passado, vi A Semente do Figo Sagrado, o mais recente filme de Mohammad Rasoulof. Nomeado para Palma de Ouro no Festival de Cannes 2024, o filme retrata a repressão exercida pelo regime iraniano durante a onda de protestos desencadeada pela morte de Mahsa Amini, em 2022, às mãos da “polícia da moralidade”.

Durante mais de duas horas, o espectador acompanha um período conturbado no quotidiano de uma família da elite iraniana. O pai, funcionário do Tribunal Revolucionário Islâmico, é confrontado pelas filhas acerca da desinformação difundida pelos meios de comunicação estatais, bem como das prisões arbitrárias e das agressões perpetradas pelo regime de Ayatollah Khamenei, com particular incidência nas jovens iranianas.

Esta obra de ficção, escrita e realizada por um iraniano exilado na Europa, aborda as amplamente documentadas violações de direitos humanos cometidas pelo regime iraniano. É manifesto que a teocracia que governou o Irão desde 1979 foi terrível para a generalidade da sua população — e muito em particular para as mulheres.

O filme mostra como é fácil normalizar abusos de poder — um exercício que não é exclusivo das teocracias. Sendo o regime de Khamenei indefensável, também o é a operação militar estadunidense e israelita que o assassinou. Segundo os termos da Carta das Nações Unidas, o recurso à força só é lícito em legítima defesa face a um ataque iminente, ou mediante autorização do Conselho de Segurança. Nenhuma dessas condições foi cumprida. Acresce que o ataque foi desencadeado enquanto decorriam negociações mediadas por Omã que mostravam sérios sinais de avanço. Em vez de uma solução diplomática, os EUA optaram, novamente, por espezinhar o direito internacional, recorrendo à mesma alegação de “prevenção” que Putin invocou para invadir a Ucrânia.

Pelos Açores, registou-se não só um grande número de movimentos de aeronaves militares norte-americanas, como também a repugnante e habitual submissão bolieirista face aos interesses de Trump e Netanyahu. A presidência do Governo Regional não perdeu tempo em afirmar que “Os Açores e a sua posição geográfica são um ativo, cuja centralidade estratégica para a segurança e defesa atlântica e ocidental, no plano nacional, no quadro da NATO e das relações com países aliados de Portugal, está agora reconfirmada pela atual conjuntura internacional.”

Bolieiro tomou esta posição no domingo passado, escassas horas após o bombardeamento da escola primária Shajareh Tayyebeh, no sul do Irão, que vitimou mais de 150 pessoas — na sua maioria meninas entre os 7 e os 12 anos.

No próximo domingo, celebra-se o Dia Internacional da Mulher — uma data com tradição revolucionária, proposta em 1910 por Clara Zetkin como dia de luta pela emancipação feminina. Vale a pena lembrar o que isso significa no contexto iraniano: mulheres que arriscaram a vida ao tirar o véu em público, raparigas que foram para a escola e não voltaram para casa.

Não podemos invocar os direitos das mulheres iranianas para justificar guerras e virar as costas quando as bases militares no nosso arquipélago servem de rampa de lançamento para as bombas que as matam. Ignorar as meninas de Shajareh Tayyebeh num comunicado sobre “ativos estratégicos” é uma cobardia aterradora. A Bolieiro de nada servirá distribuir flores no próximo domingo.

A solidariedade com as mulheres, e com as iranianas em particular, não se faz com gestos simbólicos num dia por ano. Faz-se honrando a memória dessas meninas. Faz-se exigindo que os nossos representantes se recusem a ser cúmplices de guerras ilegais. As revolucionárias que fundaram este dia sabiam que tanto os tiranos como os imperialistas são adversários da emancipação popular. E entre os grandes tiranos e os pequenos homens que lhes abrem as portas, a diferença é apenas de escala.