Em paz sujeitíssimos
Faz hoje duas semanas que Bolieiro foi entrevistado no Hora da Verdade. Vale a pena analisar o que disse sobre a dívida regional e sobre a base das Lajes.
Quanto à dívida, Bolieiro perguntou se fazia sentido falar em resgates quando “a dívida face ao rácio [do PIB] é de 60%, enquanto o País está muito acima”, sendo que também a da “Madeira [está] acima [da] dos Açores”. Ora, Bolieiro deve ter-se informado, e mal, junto do seu Secretário das Finanças. Duarte Freitas afirmou, em Setembro, que a dívida se manteria “abaixo dos 60%”, esperando um défice de até 150 milhões. Estava completamente errado: o défice, segundo o INE, foi de 300 milhões, tendo a dívida atingido 3 800 milhões, de acordo com o Banco de Portugal — levando o rácio para lá dos 60% que Freitas prometeu.
Curiosamente, a comparação com a Madeira é reveladora: ao passo que o rácio subiu nos Açores entre 2020 e 2025 (de 57% para cerca de 62%), a Madeira reduziu o seu de 115% para 60%, com a mesma Lei das Finanças Regionais que temos… E a comparação com a dívida nacional é descabida, por ser de uma natureza diferente. Aliás, quanto mais dever o Estado, maior o risco de as transferências (de centenas de milhões) de que dependemos diminuírem.
Falta ainda somar a dívida da Azores Airlines — que nos chegará aos bolsos. Bolieiro, que acusou o PS de usar barrigas de aluguer para ocultar dívida, faz uso da mesma estratégia. E esta está pronta para parir o maior cachalote que já se viu.
Mais adiante, Bolieiro defendeu que a utilização da base pelos EUA para atacar o Irão reforça a nossa importância, pedindo a revisão do acordo bilateral “com sentido de oportunidade”, de modo a “retirar dele um justo benefício”. Apelidou os estadunidenses de “aliados e amigos” e considerou que “o mundo está cada vez mais perigoso fruto […] do comportamento do próprio Irão” (minuto 28). Confrontado com a possibilidade de nos tornarmos alvo, respondeu que ia “reservar-se a considerações para não criar alarme social”.
Dias depois, no passado sábado, foi a vez do eurodeputado Paulo Nascimento Cabral escrever aqui no Açoriano Oriental que partilha “da posição do Presidente do Governo dos Açores”: “quanto mais a base for utilizada, mais se reforça a nossa importância” — e que quem critica esta posição está “a diminuir os Açores”.
Bolieiro e Cabral devem lembrar-se da cimeira das Lajes de 2003, em que Bush, Blair, Aznar e Barroso posaram para a fotografia que antecedeu a invasão do Iraque. Espanha, que pagou a fotografia com 193 mortos em Madrid, aprendeu: Sánchez proibiu a utilização das bases espanholas para atacar o Irão. Mas há quem não aprenda — e vinte e três anos depois, perfila-se o PSD para ocupar o lugar de Barroso na fotografia seguinte, ao lado de Trump e Netanyahu.
Também nestas páginas, Francisco Simões reconheceu que os termos do acordo bilateral “excluem os fins atuais” e argumentou que a Terceira “dificilmente poderia ser defendida se a rutura fosse total [… e] poderia ser tomada sem grande resistência” — defendendo, implicitamente, a solução “menos má, embora suja” de não criar incómodo aos estadunidenses.
É possível que Bolieiro e Cabral adiram a esta tese sem a referir. É até legítimo que tenham medo que o seu “amigo” tome a base pela força. Esta situação tem um paralelo evidente com a que deu origem à divisa do brasão dos Açores: Antes morrer livres que em paz sujeitos, de uma carta de Ciprião de Figueiredo a Filipe II de Castela, recusando entregar-lhe esta mesma ilha Terceira.
Ninguém exige a Bolieiro nem a Cabral que se disponham a defender a base de pistola na mão. Aliás, se Trump decidir tomar as Lajes, o melhor talvez seja nem pôr lá soldados. O inadmissível é antecipar-se à derrota e juntar-se ao agressor para fingir força. Traindo a nossa história, este governo sujeita-se — e sujeita-nos — o mais que pode.